quinta-feira, 28 de julho de 2016

Capítulo 8 - Nêmesis


Sabe, eu tenho essa vozinha na minha cabeça, meio sarcástica, soando um tanto como a voz do meu primo, aquela voz chata da razão dele, que fica repetindo algo como: “Ay, isso não vai prestar.”
Eu nunca deveria ignorar tanto essa voz, por mais chata que ela seja as vezes. Principalmente nesse contexto. Em um carro mais caro que o apartamento que divido com a Tina, dividindo espaço com a Mari-louca e o namorado tonto dela – vulgo meu melhor amigo – rumo a casa do ex da minha melhor amiga, visando a destruição dele – ou seja, do carro dele, que é a mesma coisa nesse tipo de gente.
O cheiro de desastre era tão grande que queimava minhas narinas.
Eu ignorei em prol da alegria de Igor – mentira, foi da carona mesmo – e cá estou, sentada nessa delegacia, com um colam preto que coça, minha máscara de Darth Vader confiscada ao lado de uma Léia e Han solo – somos teatrais, vai julgar agora – enquanto Nelson resolvia tudo com a fiança. Nelson, aquele Nelson, meu inimigo mortal. O mesmo Nelson que vinha me evitando como a praga desde a noite que o vi no clube em uma situação inusitada. Aquele Nelson, com quem agora eu tinha um dívida. Tudo por que Igor meteu a Tasha na noite que era para ser de Cris e Greg.
Pelo menos tínhamos deixado o carro do ex-namorado-babaca cor-de-rosa, e com tanto peixes no porta-malas que duvido que aquele cheirinho ia sair nesse século. Justiça!
-Vou repetir, a culpa inteira foi dela.
-Já te ouvi Ayzu, nas outras 50 vezes.
-E eu estou bem aqui Zuzu, se não lembra.
-Não queria lembrar. Podíamos ter ficado no carro mesmo, terminado o serviço, mas nãaao, tínhamos que tentar pintar o cabelo do sujeito. Invasão de domicilio, que lindo.
-Admita, você tinha vontade de pintar o cabelo dele também.
-Não vem ao caso. Era pintar o carro e cair fora. Só isso. Nada demais.
-Meninas...
- Que chaaatooo. Você precisa se arriscar mais Zuzu. Se jogar para a vida, ter algo para contar para os netos.
Eu mereço. Devo ter feito algo muito ruim em outra vida. Olhei pra Igor e o infeliz fingia que nada acontecia, apenas olhando de vez em quando para a porta.
Estranho. Um comportamento estranho.
-Está esperando alguém Han Solo? – perguntei desconfiada, e até mesmo a doida o olhou com curiosidade.
-Talvez. – E de novo aquela cara de culpa. Cara de quem ia fazer uma coisa de que eu não ia gostar nada. Eu conhecia bem aquela cara dele. E geralmente está associada a uma pessoa em particular.
-Não. – balancei a cabeça e Igor me olhou com mais culpa ainda, o que provava que eu estava certa. –Não e não. Não Igor. Não.
-Ay... - Mari parecia ainda mais curiosa com meu estresse. Igor estava com os olhos arregalados.
-Eu vou matar você Igor. – Minha voz saiu calma. – Assim que me livrar dessas algemas. Eu vou matar você. Lentamente.
-Um doce, como sempre.
E aquela voz maldita. Como queria estar errada ao menos uma vez. Virei a cabeça devagar para a porta. Como se fosse fazer a maldita aparição sumir. Mas não, lá estava o meu nêmeses do colégio. Esqueçam Nelson, Mari-louca, Monalisa tarada. Todos anjos.
Todas ótimas pessoas se comparadas a Samuel Valentin. Irmão mais velho do meu agora ex melhor amigo.
-Você ligou para o estrupício. – se um olhar matasse, Igor não estaria mais ali. – Você ligou para o energúmeno.
- Vim salvar meu irmãozinho inocente da sua má influência. – Igor parecia que queria sumir quando voltei os olhos para a odiosa figura. Aquele ruivo desgraçado. E quase fiquei satisfeito ao ver que ele estava tão feliz em me ver quando eu estava em vê-lo.
-Oi Sam. – Igor murmurou, desconfortável. – Não precisa falar assim com ela.
-Nem comecei. A gente conversa em casa. – Mari franziu a testa quando recebeu um olhar também não muito amigável. Parece que havia encontrado outra coisa em comum com aquela louca.
-O quê? – ela perguntou, segurando a encarada aborrecida.
Ele bufou, a ignorando e dando as costas em direção a sala onde Nelson ainda estava, murmurando algo sobre Igor só se associar com pessoas problemáticas.
-Quem é esse amor de pessoa? – ela perguntou para ninguém em particular, o rosto ainda irritado. Igor respondeu ainda assim.
-Meu irmão mais velho. Ele é um pouco super protetor.
-Ele é um idiota. -  Me meti. Mari-louca assentiu até perceber que concordava comigo e nos encararmos irritadas, voltando a virar o rosto.
Nesse momento Nelson saiu da sala, com a mesma expressão desconfortável.
-Vamos Mari. – a loira assentiu, se erguendo. Deu um beijo de cinema em Igor. Nelson e eu reviramos os olhos ao mesmo tempo. Quando percebemos isso fechamos a cara. Hoje era o dia de ter coisas em comum com os Nelsons, ao que parecia. – Mari, anda!
A loira bufou, se erguendo.
Samuel saiu com a mesma cara aborrecida de sempre, me olhando como se eu fosse a culpada da seca e da fome do mundo.
-Bora Igor, antes que eu mude de ideia e ligue pro pai e pra mãe e te dedure.
Os quatro estavam lá de pé. Parece que eu tinha sobrado ali. Comecei a pensar em como ia sair dessa sem back up, ligar para Davi foi descartado, mesmo que ele estivesse por perto – o que ele não estava, outro continente era longe o bastante - não tinha nada pior no mundo do que a cara de decepção do meu primo. Sem condições.  
Meus tios viviam há pelo menos seis horas de distância dali, e eu não daria aquela dor de cabeça a eles. Valentina não atendia o celular. Igor, que seria a primeira opção, também estava encrencado, Samuel devia estar o arrastando pra casa agora.
Não havia mais ninguém.
Que ótimo. Eu ia ficar ali. Ser enviada a um presídio. Eu nem mesmo tinha uma gaita, sempre tinha uma gaita nos filmes!
-Alguém vem buscar você florzinha?
Olhei para cima e a atendente da mesa me olhou com um misto de preocupação e reprovação que eu não sabia como ela conseguia fazer. Parecia até meu primo.
Então prestei atenção nas palavras dela. Pisquei aturdida.
-Fui liberada?
-Pagaram sua fiança também, querida.
-Oh.
 Pensei em perguntar quem, mas mudei de ideia. Não sabia quem seria mais bizarro, Nelson ou Samuel me livrando do xadrez. 
Me ergui desajeitada, desejando boa noite a atendente, dizendo que esperaria uma amiga do lado de fora, para dar sossego a ela que me olhava daquela forma maternal, me dando conselhos enquanto liberava minhas coisas que haviam sido confiscadas. Tina não atendeu o telefone, eu não tinha dinheiro suficiente para táxi. Eram quatro da manhã, e eu tinha duas opções, esperar até amanhecer para resolver o que fazer, ou ir para o ponto de ônibus perto, com colam e tudo. Levando em conta que eu tinha uma prova logo no primeiro horário, a primeira opção não daria certo, por isso suspirei e desci pelo estacionamento em direção ao ponto, checando meus ombros por perseguidores.
A situação me deu um certo vazio por dentro. Me senti sozinha. Sem querer pensei em Nelson buscando Mari, Samuel com Igor. Naqueles momentos eu percebia o quanto comigo era diferente. Eu tinha Davi, certo, e meus tios. Mas exceto por Igor e Valentina, não havia ninguém perto o bastante, a um telefonema de distância para me ajudar.
Mesmo Igor e Valentina. Eles eram meus melhores amigos, mas em uma situação como essa eu via que não era a mesma coisa. Sempre teria uma prioridade, os problemas deles. Por mais que eu quisesse, eu sabia que não éramos realmente uma família. Me sentia egoísta de exigir algo deles por isso...sei lá.
Pensei no mesmo momento nas palavras de Mashur, e odiava perceber que ele estava certo. Talvez eu não fosse tão durona o quanto pensava. 
-Pensei que ia passar a noite plantada lá dentro Saki.
De tanto olhar para trás, quase bato de frente com Samuel. Pensei que eles já tinham se mandado. Demorei um pouco para processar o que ele dizia, presa em minha depressão. E de verdade, não estava em clima para reagir. Apenas o ignorei e continuei andando para o ponto.
-Ay! – ouvi a voz de Igor me chamando, preocupação palpável. Eu ainda estava zangada demais com ele por não ter me avisado sobre Samuel vindo, que ele estava na cidade. Ele sabia bem a razão disso. Mesmo que eu soubesse que não ficaria com raiva por muito tempo, provavelmente amanhã teria esquecido, não conseguia ficar irritada com Igor, ainda mais sabendo que se ele não chamasse Samuel, teria que chamar os pais dele, o que seria bem pior. Mas naquele momento, não queria me despedir dele. Queria ir pra casa, deitar na minha cama.
Quase gritei quando uma mão agarrou meu braço no momento em que atravessava a rua estranha. Virei e soquei a pessoa com toda a força que eu tinha até ela me soltar.
-O que pensa que está fazendo, sua louca!?
Respirava pesado e Samuel estava lá, segurando um nariz sangrando, os olhos arregalados.
-O que diabos?! – xinguei, segurando minha mochila contra meu peito. Meu coração ainda batendo forte.
-Que diabos digo eu! – Ele rebateu irritado. – Vai andar para casa? Quatro da manhã!
-Não que seja da sua conta, mas vou pegar o ônibus. – Dei as costas e continuei andando, ainda me recuperando do susto. Até ele voltar a agarrar meu braço e começar a me arrastar. Alguns policiais perto da delegacia se alarmaram. Que ótimo, mal saía de lá e ia acabar voltando. -Me solta! – sibilei. E fui ignorada.
-Você continua o mesmo problema de sempre Saki, nunca muda. Irresponsável, problemática. – ouch. Aquilo não devia me incomodar tanto, deveria estar acostumada. – Era de se pensar que tinha crescido.
Ele conseguiu me trazer de volta ao estacionamento quando consegui me livrar dele, meu braço doendo pelo aperto. Igor saiu do carro rapidamente, os olhos arregalados ao notar algo no meu rosto que eu não sabia o que era. Não sabia se minha expressão naquele momento era assustada, magoada, irritada.
-Saki! – nós três viramos ao mesmo tempo, e outra surpresa, Mari e Nelson estavam ali ainda também. Ele já no banco do motorista, ela vinha andando até nós, o rosto duro, de uma maneira que não tinha visto ainda, e pela cara de Igor, ele também não. – Vamos, te dou uma carona.
Não tive tempo de reagir quando ela pegou minha mão com firmeza e me guiou até o carro, com uma estranha e bizarra gentileza.
-O que pensa... – Samuel começou, mas foi logo interrompido por ela.
-Da o fora ruivo! – Ela pausou na porta, abrindo e praticamente me empurrando para dentro. Eu estava chocada demais para reclamar.
-Deixa ela Sam! – Igor rebateu, segurando o braço do irmão doido dele. A voz firme, e eu sabia que ele estava puto com ele, Igor nunca falava assim com o irmão-herói dele.
Mari pausou na porta do banco da frente, olhando por cima do carro. A voz mais animada.
-Boa noite amor, te ligo amanhã!
Doida.
O carro já estava na estrada quando sai do meu transe.
-O que diabos...
-Coloca o cinto Zuzu. – Obedeci, por que Nelson estava dirigindo como um louco. E talvez por que ainda estivesse em choque com a situação.
-Quatro da manhã. – Nelson murmurava na direção. – De colam, ponto de ônibus, em uma rua deserta. Uma louca.
-Pera ai. – comecei indignada, mas fui interrompida pela doida.
-Não sei como sobreviveu até hoje.
-Eu...
- Pura sorte. Por quê vive sem um pingo de instinto de autopreservação.  – Ele concordou.
- Agora vocês...
- E Igor deve ser adotado, não tem como ele ser irmão daquele grosso.
-Seu cunhado é um completo babaca Mari. – Nelson olhou para a irmã com cara de pena e ela suspirou dramática.
Me calei depois dessa, eles não iam me deixar falar mesmo. E eu não ia abrir a boca para concordar com os dois, que era o caso. Já tinha acontecido vezes demais naquela noite.
Minha vida estava mesmo ficando cada vez mais louca.

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