segunda-feira, 21 de abril de 2014

Capítulo 7 - Resgates na madrugada



Eu sabia que a ideia da Tina de trazer a Mona-bruxa para casa ia dar merda. Ainda mais quando a vi chegar sozinha sem a ruiva. Eu estava caida nos livros, tentando compensar minhas dormidas na aula para a prova do Mashur no outro dia. Meu professor-pecado estava sendo muito paciente, em vista que minha vida acadêmica se tornava uma curva negativa essa semana, e para piorar, eu mal prestava atenção na aula dele, ou dormindo, ou olhando para o formato do queixo dele, ou como ele tinha certo balanço quando usava o apagador... essas coisas distraem demais.
Haviamos nos tornado próximos. Infelizmente, como professor e aluna. Eu notava que ele se preocupava comigo, assim como com o Nelson. Talvez por que ele também não parecia nada bem esses dias. Olheiras, dormindo na aula, não me chateava. E a prova que ele estava com algum problema era tão grande, que Mari havia largado do meu pé e nossa luta interna sob os olhos ingênuos de Igor, para ficar com ele no intervalo, conversando preocupada. Acho que por isso Igor estava meio livre e me ajudando no caso Valentina.
O caso é, não meu amor platônico só crescia. Ele era lindo, inteligente, tinha um coração gigante, bem-humorado. Só meio triste as vezes, eu meio que notava. E isso ainda me fazia mais encantada, apaixonada, enamorada, essas coisas. Ele me acalmava, e isso, meus caros, era um milagre.
O fato é. Eu não podia tirar nota ruim e sujar com ele. Eu tinha que me mostrar um pouquinho, sabem como é. Além disso, eu tinha que manter minha bolsa, sempre frisando isso. Sou paranóica com isso.
E lá chegava a mona-louca, doidona, se agarrando com uma morena para dentro da minha casa. Não que eu ligasse, ao menos ela me deixava em paz. Claro que ela me chamou para participar da festa, a que eu recusei de forma educada (só que não tão educada) e mandei ela ir para aquele lugar, além de perguntar onde tinha enfiado a minha  amiga ruiva que havia saido de casa prometendo que não colocaria alcool na boca.
- Se divertindo.
Foi isso que a Mona-loira falou.Se divertindo.
Tenho medo dessas palavras somadas com o nome Valentina no estado atual dela pós- Diego.
Liguei para ela, sem sucesso, e apenas recebi uma mensagem to viva e que dizendo que Freud explica, o que não entendi nada. 
Voltei a estudar, ou tentei, fiquei vendo unicórnios, Igor me ligou falando que Mari isso e aquilo, e aquilo outro.
Acabei apagando.

Acordei dormindo em cima dos livros, sentada na mesa da sala. Meu celular tocava descontrolado e atendi ainda com um pé no sono:
- Ayz! – a voz veio com uma risada alta, acompanhada por um som de fundo ensurdecedor.
- Tina? 
Ela respondeu com outra risada estranha.
- O mundo está girando Ayz! Ele é tão colorido, queria que o Di pudesse ver isso...
Fiquei totalmente alerta e me ergui de um pulo.
- Tina? Onde você está? 
- No pultz. Nome estranho pra uma boate... – ela começou a tagarelar e do nada a chorar muito.
- Fique aí Valentina. – ordenei para sua voz chorosa. – Estou indo buscar você agora mesmo.
- Valentina, você nunca me chama de Valentina...
Desliguei o celular e corri ao quarto ainda atordoada, derrubando livros no processo. Peguei um short qualquer da gaveta e uma camisa de babados, dei uma rápida olhada no espelho o suficiente para ver que havia uma marca de arame de caderno em minha testa. Resmunguei, peguei a bolsa e chamei um táxi.
Pultz, codinome para o inferno. Logo que entrei lá descobri que meus tímpanos nunca mais seriam os mesmo. Liguei para uma Tina chorosa e ela me disse que estava perto dos banheiros, do outro lado. Ou seja, teria que atravessar aquele mar de gente que dançava o ritual do acasalamento, entre a fumaça do cigarro, com diversas mãos tentando me apalpar. Valentina, você vai me dever isso o resto da sua existência ruiva!
Consegui passar a custo pelo mar de gente, entre o medo de ser sufocada. Encontrei a ruiva chorona e bêbada largada em um canto perto do banheiro, sentada na escada. Quando me viu ela começou a chorar mais ainda e quando me abaixei para ajuda-la a se levantar ela agarrou-se a meu pescoço como se fosse uma erva daninha.
-Ayzuuuu!! Por que ele terminou comigo? O que eu fiz? Eu devo ser tão irritante...
- Geralmente não. – respondi e logo me arrependi do tom seco. Bom, ela estava sendo irritante agora, mas isso não é comum. Vamos Ayzu, sua amiga está mal... – Você é sexy e inteligente... qualquer cara iria querer você entendeu?  Diego é só um moleque. Não conheci você insegura assim Valentina!
Ela fungou ainda abraçada comigo.
- Sexy?
- Sim. – eu ri.
- Sexy como uma mulher fruta?
- Não. Com elegância, como a Satine de Moulin Rouge. – respondi com veemência e funcionou, ela riu e me largou. Ela estava péssima mesmo, mas ao menos havia parado de chorar. – Levanta essa cabeça criatura, e vamos sair desse lugar antes que eu sufoque em fumaça.
Nos erguemos de qualquer jeito e amparei como um soldado de guerra. Várias meninas vomitavam perto do banheiro e rezei para a ali do meu lado não aderir a moda. Me apressei e fui por uma rota mais perto da parede. Valentina era muito grande pra mim, e eu lutava para apoia-la. No meio do caminho quase cai ao ver uma cena um tanto...incomum.
Eu vi Nelson.
Beijando um cara.
Não, beijar era pouco, eles estavam se engolindo!
No instante em que ele cruzou com meus olhos eu percebi duas coisas:
1- Ele havia me reconhecido.
2 - Ele não fazia ideia que a irmã dele havia me contado que ele gostava de caras. O que queria dizer que minha visita no quarto dele havia ficado em segredo.
Ele empurrou o cara que não vi o rosto, assustado, e fiquei mais vermelha que o cabelo da sujeita que eu carregava. Aquilo não era da minha conta, apenas continuei andando. Avistava a porta quando fui interceptada. Me puxaram de Tina e ela quase caiu. A vi por um momento atordoada me procurando e gritei seu nome. Senti que alguém me jogava contra a parede e um hálito etílico se aproximou demais do meu rosto.
- Ora ora, quem eu encontro por aqui!Ayzu! -  não conhecia o sujeito, ou lembrava se conhecia. Mas ele me conhecia.
E parecia que queria conhecer mais.
 Sua voz era alta e embolada, e eu estava bebendo litros só com o hálito dele.
Tentei empurrá-lo mais uma vez e ele agarrou minha cintura e tentou me beijar.
- Solta!– Eu ia  socar aquele sujeito mas tanto, mas tanto...
- Ouça a garota. – uma voz acompanhada de um braço forte empurrou o mala de cima de mim. O garoto desequilibrou e caiu em cima das mesas. Senti uma mão forte em meu braço me puxando pra saída.
- Espera! A Tina! – gritei me desprendendo da mão e olhando ao redor. Avistei minha amiga no mesmo lugar que havia a deixado. Puxei seu braço e reboquei. Meu salvador a apoiou do outro lado e saímos no meio das luzes piscantes e da fumaça;   
Já fora respirei o ar puro e frio da madrugada e olhei para meu salvador.
- Professor... Obrigada...
Mashur me encarava com uma expressão estranha, e eu só me desmanchava de gratidão. Nos encaramos por um instante, até que minha amiga ainda entre nós virou o corpo para frente e vomitou. Obrigada mesmo Tina, estragando climas como ninguém.
- M.me desculpem. – ela falou soltando do braço de Mashur e limpando a boca. Ele sorriu balançando a cabeça.
- Vamos vocês duas, tem um café aberto ali na frente. – sua voz era suave mas autoritária. Caramba, ele parecia irritado. De uma forma linda e contida. Engoli em seco e enrolei meu braço ao redor da Tina, embora ela já estivesse mais sóbria com o ar frio.
Caminhamos atrás do homem até a cafeteria que ficava na esquina da boate. Entramos no ambiente quase vazio, a não ser por um grupo que comia panquecas em uma mesa, e os garçons que pareciam jogar papo-fora no balcão. Quando entramos um deles veio nos atender e Mashur falou com ele enquanto eu ajudava minha amiga a sentar e me depositava a seu lado. Ela recostou a cabeça no tampo frio, e em poucos segundos a infeliz estava dormindo. Que ótimo. Legal mesmo.
- E então? – a voz suave me fez olhar para cima de imediato. Mashur me encarava com uma sobrancelha erguida enquanto sentava do outro lado da mesa, em frente a nós duas. 
– Noite agitada? - Eu ri sem graça. Ele continuou me olhando com uma cara de pai preocupado e suspirei encarando minhas mãos na mesa.
- Eu sei que não tenho o direito de me meter na sua vida Ayzu, mas nunca imaginei que encontraria você em um lugar como aquele, ou a Valentina. Aquela boate não é um lugar para se frequentar sozinha.
Continuei mexendo desconfortável meus dedos: - É q.que a Tina ligou, e ela estava chorando, eu não podia deixar ela sozinha nesse lugar. – soltei baixo.
- Entendo. – ele assentiu – E não precisa fazer essa cara, não é o interrogatório. Só fiquei preocupado, eu imagino que você não seja dessas coisas. Um lugar daqueles não é para você.
Entre a emoção de ver ele preocupado comigo, pensei o que ele estaria fazendo lá, se o lugar era realmente perigoso. Eu ouvia coisas sobre pultz, claro. Drogas rolando solta e encrenca. Nem imagino no que deu na desmiolada da Valentina para ir a lugar daqueles, mas e Mashur?
Eu queria muito perguntar, levantei os olhos soltando o ar mas o jeito como ele me encarava me paralisou. Meu coração disparou. Na mesma hora chegaram os cafés e as panquecas e ele fez um floreio com a mão me mandando pegá-las. Assenti e beberiquei o café o encarando através da franja. Ele parecia me analisar e já não aguentando mais o olhei sugestivamente.
Ele riu envergonhado: -Desculpe, mas estou só reparando que você escapou de um assédio e não parece nenhum pouco nervosa.
Era isso? Depositei o café na mesa e suspirei: - Era só um idiota. Não é como se eu estivesse com medo dele. – Só um pouquinho.
- Você é muito imprudente criança. – ele balançou a cabeça. A palavra criança era um balde de água fria em mim. – O mundo é bem mais perigoso do que você imagina Ayzu. Ele pode engolir você.
- Ele te engoliu? – Supus. Eu não queria ser rude, mas odiava ser subestimada. Sua expressão caiu um pouco e me arrependi do que falei. Droga! Ele havia me salvado e a pele branquela da Valentina, eu podia ser um pouco mais compreensiva e ouvi meu merecido sermão. Ia abrir a boca para me desculpar, mas ele foi mais rápido.
- Eu já vivi muito Ayzu. Eu já vi muito. Eu sei que você se irrita quando eu a trato como criança, mas para o mundo, é o que você é ainda. Eu realmente gosto de você. Acho você inteligente. Mas você também ainda é muito ingênua. E sozinha, apesar de querer mostrar para todo mundo que não se importa com isso. Eu sei disso, por que fui igual a você um dia. Acredite em mim, eu sei o que você está passando.
Continuei o encarando ainda paralisada. Minhas mãos tremiam levemente e as fechei em punho. Podia sentir meus olhos ardendo e os abaixei rápido. Eu queria falar um monte de coisas, mas só murmurei um “eu sei” e continuei a encarar minhas mãos com os olhos marejados. E então, do nada, senti a mão dele na minha cabeça. Abri os olhos espantada e o encarei. Ele sorria.
- Tudo bem Ayzu. Não precisa ficar assim. Coma, eu levo vocês pra casa tudo bem? – sua voz era carinhosa, como se ele falasse com uma criança pequena. Senti meu rosto pegar fogo e assenti rápido. Ele riu da minha expressão e voltou a comer a sua panqueca, ignorando as sensações que o toque me causou. Era um tipo de carinho que eu raramente me deixava sentir. Diferente dos abraços escandalosos do Igor e da Valentina, ou mesmo do carinho meio contido dos meus tiose de Davi. Era algo que me aquecia por dentro, que me fazia me sentir protegida.
Senti um sorriso involuntário nos meus lábios e voltei a comer com calma. Ele nos levou ao fim até o carro, arrastando uma Valentina adormecida e nos levou até em casa. Durante todo o percurso não falamos mais nada, e eu só queria que ele me tocasse de novo do mesmo jeito. Já estava na minha rua, logo acabaria e me desesperei. Não queria que ele fosse embora! 
Ele me ajudou a tirar Valentina do banco de trás e a levou nos braços até o sofá, e eu nem podia acreditar que ele estava ali, no meu pequeno apartamento, naquela sala minúscula, totalmente fora de contraste com todo o ambiente. 
- Ela vai ficar bem? – ele perguntou me olhando colocar o cobertor em uma valentina que roncava.
- De ressaca amanhã, arrependida, envergonhada... Mas vai sobreviver.
Ele assentiu e o levei até a porta. Foi quando me lembrei.
- Hei, professor, eu sei que é atrevimento, mas o Senhor falou que a pultz era um lugar perigoso.
- Sim.
- O que o Senhor fazia em um lugar daqueles?      
Ele pareceu pego desprevenido com a pergunta direta. Pensei de imediato que ele fosse me dar um passa fora, mas continuei o encarando curiosa. Ele corou? O professor Mashur? Não é possível!
- Na verdade, situação bem parecida com a sua, estava procurando um amigo meu. – Ele falou coçando a nuca desconfortável.
- Ah, e o encontrou? – Será que eu cairia nessa? Ele deu de ombros e suspirou negando com a cabeça. Parecia bem triste e tive uma vontade tremenda de lhe fazer um carinho, mas me contive e prendi as mãos com força cruzando os braços. Quando ele voltou a me olhar deu um sorriso que acabava com minha alma.
- Boa-noite Ayzu, é melhor eu ir agora.
-C.claro. – Reorganizei meus pensamentos. – E muito obrigada. Mesmo.
Ele assentiu e seguiu para seu carro. Eu acenei em resposta e ele parou no último segundo antes de entrar e sumir na madrugada:
- Nos vemos amanhã. E espero que tenha estudado para a prova. – ele riu e eu gelei.
A prova.
Mas que porcaria!  

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