sábado, 8 de fevereiro de 2014

Capítulo 4 - Sarah e a loira psicopata

Nunca diga que não falta mais nada acontecer.  É sério, me prometa. NUNCA fale isso.
Ok, você não deve estar entendendo nada. Nem eu, na verdade. Nem eu sei como fui findar o meu dia presa nesse elevador com uma  estudante de intercâmbio de Londres que eu nem conhecia até horas atrás chorando e batendo nas paredes.
Ok, eu sei. A "bitch" da namorada (isso, namorada agora) do meu melhor amigo me prendeu aqui. 
-We will die! 
Aquilo estava me dando dor de cabeça. Sem falar que eu tenho pavor desses acontecimentos, estou tentando não pirar, mas estou para me juntar com a garota e começar a encomendar minha alma. Por que se depender do zelador da minha ala, com seus fones em último volume, Tina que não vai sentir minha falta por estar transando com Diego como coelhos, e meu melhor amigo que pensa que fui para casa... Vamos apodrecer aqui. 
E para piorar, a criatura não se cala e respira para que eu pergunte se alguém vai notar que são 11 da noite e a individua não pisou em casa. Com sorte ela é diferente de mim, tem uma vida social, amigos, essas coisas e tudo mais. E não apenas dois amigos na cidade.
Ou, em meu caso, no mundo.
- Se acalme mulher!  - Me levantei de onde estava sentada no chão de metal frio, puxei a criatura pelos pulsos e me estiquei para lhe mandar um tapa no rosto. Vi aqueles grandes olhos verdes arregalados cheios de lágrimas, os meus dedos marcados na pele branca-fantasma, os cabelos ruivos e nos ombros ondulados já estavam uma bagunça grudando no rosto miúdo. Mas ela se calou, e para minha surpresa parou de chorar.
- Thank you... Obrigada. - ela falou com o sotaque forte, ficando vermelha e sentando no chão acompanhada de mim, de lados opostos uma para outra nos encarando. Aqueles olhos grandes e inocentes assustados deviam ser o reflexo dos meus.
- Sorry.
- Tudo bem. - Ela sorriu de leve. - Sorry me too. Me desculpe também.
Ficamos em silêncio, pela primeira vez desde que o elevador havia parado há duas horas. Ela fungou um pouco e comecei a reparar melhor na minha colega de má situação. Ela era pouca coisa mais alta que eu, magra e parecia uma fada, ou um fantasma, do tipo que é tão delicado que parece que vai se quebrar facilmente. O que me deu mais pena de ter estapeado a criatura. Então resolvi ser simpática.
- Ajuda se não pensar onde está.
Ela assentiu fechando os olhos.
- When i was a child... - ela falou, e então balançou a cabeça. - Sorry. Quando eu era criança, meus primos me trancaram no armário em uma brincadeira... - Ela voltou a fungar. - Eu odeio lugares fechados!
- Família boa a sua. - soltei sem querer e ela riu. - Eu fiquei uns tempos em um hospital quando era mais nova, só não gosto de ficar confinada.
Ela assentiu sem perguntar nada.
- Alguém vai sentir sua falta, ehr...
- Sarah. My name is Sarah. - Ela sorriu de forma fraca e me estendeu a mão pequena. Ela usava um vestido florido enquanto eu parecia que tinha saído de um passeio a praia, totalmente desarrumada. Era um contraste, mas ainda assim tínhamos alguma coisa...parecida.
Oh, os olhos dela. Tinha uma coisa familiar ali.
- Então, Sarah, alguém vai sentir sua falta em casa?
- My friend, maybe.
- Ah é, você não tem família aqui... - falei pensando alto.
- E nem em Londres. - Ela falou de forma melancólica. - Meus pais morreram há alguns anos, e meu irmão mora nos EUA.
Então era isso. Aquilo nos olhos.
- Que chato. - Falei sem saber o que dizer. Sinto muito não, por que eu odiava isso, quando diziam para mim.
- É sim. - Ela mordeu o lábio e suspirou. 
Fiquei mal de ver ela assim. Talvez fosse a situação toda, mas Sarah parecia ser uma guria legal sabe. Eu sabia umas coisas sobre ela, de ver por aí. Lembro que Igor havia falado dela por uns tempos, quando ela chegou, mas nunca soube por que ele desistiu de se aproximar dela. Quer dizer, ela não parecia ser louca por animes, gostar de bandas de rock, ou ser falante. Nem era excepcionalmente linda, como Mira, mas havia algo nela que me fazia vê-los juntos. Ela estudava música, tocava violoncelo ou violino, não lembrava bem, e morava perto do campus também. Não tinha muitos amigos além de uns intercambistas da Coréia,e eu nem sabia por que. Ah sim, e era super atrapalhada. Eu via ela tropeçando por aí por nada, bem semelhante a... mim.
- Eu perdi meus pais também. - Falei para ela, de uma vez, tomando sua atenção. - Eu tinha dez anos e um cara bêbado bateu no nosso carro. Sobrevivi por sorte.
Ela arregalou os olhos muito verdes, mas então do nada pulou em mim e me abraçou. Me retesei assustada. Eu não era muito dada a essas demonstrações de afeto. Igor me obrigava me agarrando pelo campus, mas é por que ele não tinha medo da morte.
- Não foi sorte. - Ela falou me soltando envergonhado pelo arrombo. - Se está viva, Deus tem algo de importante para você fazer ainda.
Ela estava sentada na minha frente, de pernas cruzadas, aqueles olhos grandes me encarando com um sorriso minimo.
Eu sorri de volta sem graça.
- Uhm, nunca tinha pensando assim... Sou Ayzu! - lhe estendi a mão, esperando alguma pergunta sobre meu nome, mas ela apenas apertou a mão com vontade, talvez feliz por ter finalmente uma possível amiga. 
- Prazer! 
Eu  tive que sorri com aquele entusiasmo.
Era como uma irmãzinha mais nova. Era como Igor.
O que me lembrava.
- Bem Sarah, quer ouvir uma história engraçada? - ela me olhou curiosa e ri sem vontade. - Do porquê  estarmos presas nesse lugar. Vou te falar sobre meu amigo bobão e a loira psicopata que ele arranjou como namorada.
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Eu amanheci quebrada por dormir no sofá. O casal havia ocupado o quarto, e pra variar, cai no chão duro da sala, atrasada como sempre, depois de levar uns gritos da Tina e ter mais um pesadelos.
No caminho para a universidade tive que aturar Igor falando da maluca, sem poder dizer que ela havia declarado guerra para mim. Até por que, estávamos brigando por ele. 
E eu estava um caco, louca para gazetar aula, e sem poder, por que o professor era um sujeito decente, nem essa desculpa eu tinha.
Logo de cara a loira doida estava esperando na entrada e agarrou Igor, quase o derrubando da bicicleta, me dando um aceno com um sorriso que me fez pensar que de fato ela era mesmo bipolar. Eu não me importava muito de ver Igor sendo agarrado. Nunca dei a mínima para ele ter namoradas, só ficava meio rabugenta por perder a atenção dele. O negócio pegava mesmo quando ele inventava de ter as amiguinhas. 
Ah, como eu odiava isso! Ele já possuía um monte de amigos, e tinha a mim e Valentina, por que arranjar mais amigas? 
Do mesmo jeito comigo e com Davi. Davi era meu primo, mas era mais para irmão, e a única pessoa no mundo que me vencia na teimosia e que eu obedecia igualmente. Quando éramos crianças, e até adolescentes, ele e Igor não podiam estar no mesmo lugar comigo sem ter ataques de ciúmes, me xingar sobre dar preferências mais a um do que a outro. Não vou mentir, eu adorava isso. Me fazia me sentir querida... a não ser quando eles exageravam e saiam se engalfinhando.
Mas enfim, o fato é: namore com quem quiser, mas nada de amiguinhos grudados demais.
Mas claro Mira  era um exceção. Ela verbalizou sua intenção de roubar meu melhor amigo. E pela maneira como ela estava agindo, aquela não iria ser uma batalha direta, mas um jogo de estratégia. Mas se ela era campeã do torneiro e vídeo-games, eu era de xadrez. 
- Bom- dia Saki. - Ela me sorriu cínica.
- Bom dia Mariana. - respondi com meu ar de tédio de sempre e Igor me olhou pidão e sorri terminando a frase. Ou eu achei que fosse um sorriso, o que pela carranca de Igor deve ter saido mal.
- Então amor. - Blergh! - Está tudo certo para a gente comemorar o começo do namoro assistindo filme no drive car?
Ela frisou namoro e me olhou. Sério que aquela energúmena podia pensar que eu tinha alguma outra intenção com Igor? Sério, quer dizer, o IGOR! O cara que me fez comer lodo do lago da cidade em uma aposta e tudo mais. Eu não entendia por que era tão difícil ver que eramos amigos e pronto, sem benefícios, sem cores. Isso, quer dizer, era meio nojento de pensar...
- Claro! É aquele filme Ayz! - Ele me cutucou jogando a bolsa em mim, ainda com a loira agarrada nele e acordei dos pensamentos.
-Hein?
-O filme que você queria. Vamos também, você chama a Tina e tudo mais.
Me deu vontade de rir da cara da garota. Ela arregalou os olhos e eles pareciam me queimar.
Igor era muito...inocente as vezes. Como ele convidava alguém que não fosse a namorada para comemorar começo de namoro?
Bom, essa era minha chance de fazer ela sofrer um pouquinho por estar sendo tão cínica.
- Claro.
Ela queria me matar!
Eu amo isso.
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Continua...

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