sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Capítulo 3 - Todo mundo odeia os Nelsons!


Se eu ganhasse nota por olhar a bunda do meu professor, esse semestre estava garantido. Nem eu sabia que podia me tornar tão... tarada.
Há três dias que eu ficava o secando quando ele passava no corredor, contando os dias para sua aula, e para completar minha situação calamitosa, ele era uma simpatia em forma de gente. Sabe como é, geralmente a quantidade de diplomas em minha universidade é proporcional ao ego. Mas não era o caso dele e de uns poucos. E isso piorava minha situação. O cara não tinha que ser bonito e inteligente, tinha que ser legal. Isso é para derrubar até gigante, eu então, no alto de meus 1, 50... Zoando, mas deu para entender.
Isso, agora dei até para ficar brincando com minha altura, nem o maldito trabalho que terei que fazer essa tarde com o "papai quero ser Bill Gates" vai mudar meu humor!
Nem o fato que meu melhor amigo me trocou por uma loira bipolar nos intervalos!
Dane-se... Eu não ia ficar com ciúmes, de jeito nenhuma! 
Só um pouquinho vai. Mas eu havia superado isso. Se eu fosse ter ataque de ciúmes com Igor sempre que ele estava alguém, eu já teria me matado. Afinal, a anti-social sou eu.
Estava eu, olhando de canto de olho meu melhor amigo na zona inimiga quando ouço aquela voz macia ao meu lado.
- Cadeira ocupada?
- Se existir fantasma nessa instituição... - resmunguei de mal-humor até me virar e dar de cara com... - P.professor! 
Bom, está na hora do céu cair sabe. Seria bem adequada e me poupar do constrangimento.
- Desculpe! Foi mal! Perdão! - comecei a soltar nervosa, arregalando meus olhos já não tão pequenos. Ele apenas riu e sentou na cadeira de frente a minha na mesa metalica da cantina. Eu estava na cantina do andar inferior. Minha universidade possuia quatro andares naquele bloco, o meu era apenas de Engenharia, e Igor sempre atravessava o campus para vir lanchar comigo (agora para lanchar com a sujeitinha que fazia engenharia de produção), apesar de eu achar a comida da ala dele bem melhor. Enfim, a cantina de baixo era uma área  com várias mesas de metal com quatro cadeiras em cada , e alguns quiosques espalhados. Era mais bagunçado do que a do andar superior, que era uma grande área cheias de mesas de madeira e self-service.
Mas deixando esses detalhes de lado, por que meu professor indiano estava sentado em minha frente. Provavelmente por que todas as outras mesas estavam ocupadas, mas tudo bem.
- Geralmente os professores comem na outra cantina. - soltei sem querer e me xinguei. Eu parecia rude, sempre. Mas ele não parecia irritado, apenas colocou seu suco e seu sanduiche natural na mesa e sorriu.
- Aqui tem mais ar fresco.- Ele respondeu. Seus movimentos eram elegantes, e tentei não ficar seguindo-os como uma retardada.  
- Ah.
"Ah. Ótimo. Eu e meu repertório magnifico."
- E a comida é melhor. - Ele cochichou. - Eu tenho minhas dúvidas sobre a cozinheira do andar de cima sabe...
O encarei incerta e vi ele piscar provando que estava brincando. Abaixei a cabeça e mordi meu sanduiche assentindo.
Putz, eu não sabia o que falar. Pelo jeito eu era o tipo de sujeitinha que quando ficava apaixonada travava. Eu nunca fui a pessoa mais falante do mundo, mas agora parecia uma muda.
O que ele veria em mim, afinal?
Eu era a aluna mais problemática possível, vivia desafiando professores que me enchiam a paciência. Usava roupas com estampas de bandas, muitas vezes, ou desenhos animados. Nunca usava salto, meu cabelo não era liso nem cacheado como o da Tina, era um meio-termo estranho, e não tinha corte definido. Eu era meio fantasma. 
E meu humor não era famoso por ser o mais simpático com todos. Eu podia ser bem legal, admito. Se eu quisesse. Mas eu era mesmo uma baita de uma sarcástica.
- Um milhão pelos pensamentos.
- Não valem um centavo. - respondi balançando a cabeça.
- Respostas rápidas. - Ele assentiu ainda com um sorriso leve, enquanto comiamos. Fui ficando mais a vontade. Parecia um poder dele e sorri também. - Então, Ayzu, me fale sobre essa universidade. Afinal, você sabe, me aproximei apenas para coletar informações secretas. 
Ri do seu tom brincalhão. Algumas pessoas olharam para a mesa, estranhando eu não estar com Igor, ou talvez eu estar rindo, eu talvez estar sentada com alguma pessoa. E claro algumas meninas me olhavam sem entender o que ele fazia falando logo comigo.
" Vadias."
Meu lado que queria as ver se queimando me fez sorrir mais e comecei a falar.
- Nunca pegue o lanche do professor de Garcia da geladeira da sala dos professores, ele pode decepar suas mãos. - Ele gargalhou, e adorei o som. - E a professora Mariana é bipolar. Não estranhe.
Ele assentiu e continuei. Conversamos durante todo o intervalo, e depois pelo corredor. Eu nunca havia falado tanto com alguém que não fosse a Tina, o Igor ou meu primo que era quase meu irmão, Davi. Ah, e claro... ele.
A lembrança me fez desanimar um pouco, mas balancei a cabeça para esquecer disso.
Não era meu assunto favorito. 
 Entrei na sala ainda conversando com o professor, não havia nenhum aluno ainda, por isso sentei na minha cadeira e ele ficou escrevendo algumas coisas no quadro, ainda conversando. A voz dele era calmante para mim, e me peguei ouvindo atenta, tudo o que ele falava. Ele parou apenas quando outros alunos chegaram, falando com esses com a mesma simpatia. 
Recostei meu queixo no tampo e fiquei olhando para ele, distraída.
- Ei, projeto 137. Chamando.
Ah, aquela voz. Enjoada. Fechei a cara e olhei para o lado encontrando os olhos verdes do meu futuro crime se ele terminasse o intento de cutucar meu braço com a chave do Porsche dele,   como parecia ser sua intenção, de pé ao lado da minha cadeira.
Esperto como era, ele percebeu e recolheu a mão, ainda me olhando cinicamente.
- Vamos fazer o trabalho hoje, na minha casa. Só para confirmar. 
Continuei o olhando indiferente. Ele entendeu a deixa e continuou, desfazendo o sorriso vendo que eu não ia ter nenhuma explosão de humor.
- Vamos juntos quando terminar a aula, quero me livrar disso.
- Digo o mesmo. - respondi finalmente dando a entender que era um sim e voltei meu olhar ao quadro. Não vi sua cara, ele apenas sentou e a aula começou.
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Eu acho mais fácil lidar com números do que com pessoas. Números não lhe traem, ou lhe deixam. Números não lhe humilham, ou lhe esquecem. Números sabem a verdade desde o princípio: eles são usados.
Eu gosto de números, cálculos e formulas certas, coisas racionais. Coisas que eu sei o resultado. Eu odeio incertezas, passos no escuro. Eu odeio não saber o que vai acontecer no final. Eu odeio pessoas que não sabem o que são, que se escondem.
E odeio Nelson.
O cara conseguia ser insuportável. Eu preferia mil vezes passar a tarde fazendo aquele maldito trabalho sozinha, a ter que escutar ele falar sobre seu Porsche ou o raio que o parta. O sujeito tem dinheiro, tudo bem. Mas Valentina podia comprar a empresa do pai dele com o dinheiro da família dela, e nem por isso perdia o precioso tempo dela tentando rebaixar os outros. Gritando com todo mundo. Tentando ostentar, e pior, chamar atenção. 
E eu tive que aguentar isso por toda uma tarde, sem explodir uma única vez. Ele só calou a boca quando viu que eu continuava em silêncio, apenas fazendo o maldito projeto, conversando apenas sobre isso,sem dar importância a nada mais dos eu falatório,incluindo sobre meu pequeno apartamento.
Eu não sabia qual era a do Nelson, ele ficava tentando me rebaixar, tentando se mostrar melhor, mas, puta que pariu, o cara tinha dinheiro, era, tinha que admitir, o maior gênio do curso em 20 anos, e só por que eu tirei uma notinha maior que a dele em um cadeira em minha vida, ele me marcava como alvo. Certo que depois eu surrei ele na saída uma vez, mas ele que começou. E eu tive sorte de não receber um processo, e só não me meti em problemas com a universidade por que na realidade estávamos já fora do terreno da universidade, e não sabia o porquê, ele não se queixou de nada. Era pessoal.
Ele, naquele momento havia fechado a matraca e trabalhava no projeto do nosso modelo pelo programa que ele mesmo havia construído há alguns anos. Eu podia achar o sujeito um mala, mas eu tinha que admitir que ele era um geniosinho. Estava ficando bom, melhor ainda com ele calado.
Eu trabalhava com os cálculos para o funcionamento do protótipo. Era apenas um seminário, mas pelo jeito ele levava tão a sério quanto eu. 
Pelo jeito, nós éramos um pouco parecidos, e isso era um pesadelo.
- Onde é o banheiro? - perguntei me levantando não acreditando que eu estava medindo a semelhanças com aquele sujeito.
- Terceira porta  a esquerda. - ele respondeu sem me olhar. - E não se perca.
- Como se fosse possível. - resmunguei saindo mas ele ouviu.
- Você e aquele seu amigo retardado se perderam na excursão da universidade há um ano. Nem crianças se perdem em um lugar daqueles.
- Pro inferno. - resmunguei, por que era verdade. Igor e eu tínhamos um censo de direção vergonhoso. Nós dois tínhamos TDH, mas enquanto Igor era muito hiperativo, e eu muito distraída. A gente já havia se perdido em cada passeio da escola e universidade possível e impossível. Uma vez Tina, Igor e eu passamos a noite procurando uma trilha, deu até no noticiário o desaparecimento, foi vergonhoso e Davi passou uma semana me fazendo decorar mapas por causa de um surto fraternal de preocupação.  
Não consegui achar o banheiro, mas encontrei o que parecia ser um quarto, e lá havia um banheiro. Entrei, estava muito apertada para ser educada.
O banheiro daquele quarto era do tamanho da minha casa.
Eu dormiria lá de boas.
Fiquei por lá, mexendo nas coisas brilhantes como uma idiota, dai quando virei claro que derrubei uma caixa da pia e caíram uns sabonetes pequenos por todo canto juntamente com um gel que se abriu e sujou tudo. Me agachei para pegá - los, mas não conseguia mais encaixar na caixa, não sei o porquê, quer dizer, tinha que entrar!
Desisti e coloquei alguns nas gavetas, mas ao tentar limpar o gel com papel higiênico, sujei minha mãos com a substância pegajosa, era gelada. Fiquei brincando com aquilo,sem saber o que era. Tinha um cheiro estranho.
Lavei as mãos e procurei o lixo para jogar a prova do crime fora, mas não achava em lugar nenhum, então joguei tudo na privada, mas não vi um maldito sabonete indo junto no meio dos papéis.
Adivinhem.
Aquele negócio não descia e comecei a me desesperar. Eu estava ferrada!
Procurei ao redor alarmada, abrindo gavetas e portas atrás de alguma coisa para me ajudar. E foi quando me deparei com uma porta de armário cheio daqueles potinhos de gel, e, pasmem, caixas de camisinhas.
Muitas. Tipo, muitas mesmo!
Fiquei entre paralisada e curiosa. Peguei algumas para ver, e o pote para ver o que era, e estava assim quando a porta que ao que parecia a senhora inteligência não havia trancado se abriu, e uma loira bonita entrou paralisando ao me ver.
- Nelson, sua camisa estava na minha cama, eu vim...
Era Mira.
Ela olhou para mim tentando entender a cena, paralisada na porta com a mão na maçaneta e uma camisa branca na mão, provavelmente do irmão.
Nos encaramos, eu agachada em frente ao armário, o cabelo suado, molhada por tentar desentupir o negócio lá, com aquelas coisas na mão. Fiquei corada e então ela arregalou os olhos ao me reconhecer e começou a rir.
- O que faz com esse lubrificante e camisinhas? E no quarto do meu irmão! - perguntou com a voz rouca de rir e corei mais.
Lubrificante!
Soltei o potinho no chão rapidamente e as caminhas como se fossem me morder.
- E.eu não...Ah...sabe. - tentei falar e ela fechou a porta e se recostou nela. Não gostei da cara dela e me retesei.
- Está transando com meu irmão Saki?
Paralisei.
E então ri. Muito. Tipo, muito mesmo. Era algo tão... estranho.
- O que acha? - perguntei ainda rindo.
- Ele geralmente gosta de homens, como você vê por seus... hum... produtos, mas ele gosta de pegar menininhas bobas como você também.
Parei de rir e fechei a cara.
- Tão idiota como o irmão. - suspirei. 
Andei para a porta para sair dali, antes que fizesse ela engolir aquelas camisinhas, querendo ou não, ela estava saindo com meu amigo, e ele gostava da vadia.
Ela não saiu da minha frente e ergui minha sobrancelha.
- Com licença. - falei de forma sugestiva.
- Antes, só um aviso. Eu gosto do Igor, de verdade. Ele não é como os idiotas daquela universidade. Mas não gosto de você, e nem do grude de vocês dois. Você acaba com a imagem dele. A garotinha problemática. - Ele sorriu, os olhos em fendas. Era maluca mesmo, e eu estava com cara de idiota demais para falar, pega de surpresa. - Eu não posso te tirar da vida dele, por que não sei como, ele gosta de você, mas vou conseguir isso, então você facilitaria meu trabalho se afastando.
- Vou afastar minha mão na sua cara se não sair da frente. - Falei ficando quase na ponta dos pés para encarar a garota que conseguia ficar bonita até com uma camiseta e short velho.
Ela riu. Riu de mim, e então se afastou e abriu a porta.
- Isso é guerra Saki.
- E eu aceito. - rebati dando as costas e saindo pelo corredor. Cheguei na sala e peguei minha bolsa jogando tudo dentro zangada. Nelson se virou me olhando confuso.
- Ei, o trabalho...
- Depois. Terminamos a porcaria desse trabalho depois. - sibilei e então me acalmei. Ele não tinha culpa, pela primeira vez. A não ser de não ter empurrado a irmã na piscina quando eram novos me poupando daquilo... - Amanhã, ou depois tudo bem?
Ele fez sinal de tanto faz. Minha cara não devia estar boa.
- Quer que eu...
- Eu pego um táxi. - respondi rápido, saindo dali.
Só no táxi me lembrei do banheiro. Esperava que o sanitário houvesse explodido e inundado aquela casa inteira. 
Ela havia conseguido foder com meu belo dia, e com minha terapia cara.  

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