quinta-feira, 28 de julho de 2016

Capítulo 8 - Nêmesis


Sabe, eu tenho essa vozinha na minha cabeça, meio sarcástica, soando um tanto como a voz do meu primo, aquela voz chata da razão dele, que fica repetindo algo como: “Ay, isso não vai prestar.”
Eu nunca deveria ignorar tanto essa voz, por mais chata que ela seja as vezes. Principalmente nesse contexto. Em um carro mais caro que o apartamento que divido com a Tina, dividindo espaço com a Mari-louca e o namorado tonto dela – vulgo meu melhor amigo – rumo a casa do ex da minha melhor amiga, visando a destruição dele – ou seja, do carro dele, que é a mesma coisa nesse tipo de gente.
O cheiro de desastre era tão grande que queimava minhas narinas.
Eu ignorei em prol da alegria de Igor – mentira, foi da carona mesmo – e cá estou, sentada nessa delegacia, com um colam preto que coça, minha máscara de Darth Vader confiscada ao lado de uma Léia e Han solo – somos teatrais, vai julgar agora – enquanto Nelson resolvia tudo com a fiança. Nelson, aquele Nelson, meu inimigo mortal. O mesmo Nelson que vinha me evitando como a praga desde a noite que o vi no clube em uma situação inusitada. Aquele Nelson, com quem agora eu tinha um dívida. Tudo por que Igor meteu a Tasha na noite que era para ser de Cris e Greg.
Pelo menos tínhamos deixado o carro do ex-namorado-babaca cor-de-rosa, e com tanto peixes no porta-malas que duvido que aquele cheirinho ia sair nesse século. Justiça!
-Vou repetir, a culpa inteira foi dela.
-Já te ouvi Ayzu, nas outras 50 vezes.
-E eu estou bem aqui Zuzu, se não lembra.
-Não queria lembrar. Podíamos ter ficado no carro mesmo, terminado o serviço, mas nãaao, tínhamos que tentar pintar o cabelo do sujeito. Invasão de domicilio, que lindo.
-Admita, você tinha vontade de pintar o cabelo dele também.
-Não vem ao caso. Era pintar o carro e cair fora. Só isso. Nada demais.
-Meninas...
- Que chaaatooo. Você precisa se arriscar mais Zuzu. Se jogar para a vida, ter algo para contar para os netos.
Eu mereço. Devo ter feito algo muito ruim em outra vida. Olhei pra Igor e o infeliz fingia que nada acontecia, apenas olhando de vez em quando para a porta.
Estranho. Um comportamento estranho.
-Está esperando alguém Han Solo? – perguntei desconfiada, e até mesmo a doida o olhou com curiosidade.
-Talvez. – E de novo aquela cara de culpa. Cara de quem ia fazer uma coisa de que eu não ia gostar nada. Eu conhecia bem aquela cara dele. E geralmente está associada a uma pessoa em particular.
-Não. – balancei a cabeça e Igor me olhou com mais culpa ainda, o que provava que eu estava certa. –Não e não. Não Igor. Não.
-Ay... - Mari parecia ainda mais curiosa com meu estresse. Igor estava com os olhos arregalados.
-Eu vou matar você Igor. – Minha voz saiu calma. – Assim que me livrar dessas algemas. Eu vou matar você. Lentamente.
-Um doce, como sempre.
E aquela voz maldita. Como queria estar errada ao menos uma vez. Virei a cabeça devagar para a porta. Como se fosse fazer a maldita aparição sumir. Mas não, lá estava o meu nêmeses do colégio. Esqueçam Nelson, Mari-louca, Monalisa tarada. Todos anjos.
Todas ótimas pessoas se comparadas a Samuel Valentin. Irmão mais velho do meu agora ex melhor amigo.
-Você ligou para o estrupício. – se um olhar matasse, Igor não estaria mais ali. – Você ligou para o energúmeno.
- Vim salvar meu irmãozinho inocente da sua má influência. – Igor parecia que queria sumir quando voltei os olhos para a odiosa figura. Aquele ruivo desgraçado. E quase fiquei satisfeito ao ver que ele estava tão feliz em me ver quando eu estava em vê-lo.
-Oi Sam. – Igor murmurou, desconfortável. – Não precisa falar assim com ela.
-Nem comecei. A gente conversa em casa. – Mari franziu a testa quando recebeu um olhar também não muito amigável. Parece que havia encontrado outra coisa em comum com aquela louca.
-O quê? – ela perguntou, segurando a encarada aborrecida.
Ele bufou, a ignorando e dando as costas em direção a sala onde Nelson ainda estava, murmurando algo sobre Igor só se associar com pessoas problemáticas.
-Quem é esse amor de pessoa? – ela perguntou para ninguém em particular, o rosto ainda irritado. Igor respondeu ainda assim.
-Meu irmão mais velho. Ele é um pouco super protetor.
-Ele é um idiota. -  Me meti. Mari-louca assentiu até perceber que concordava comigo e nos encararmos irritadas, voltando a virar o rosto.
Nesse momento Nelson saiu da sala, com a mesma expressão desconfortável.
-Vamos Mari. – a loira assentiu, se erguendo. Deu um beijo de cinema em Igor. Nelson e eu reviramos os olhos ao mesmo tempo. Quando percebemos isso fechamos a cara. Hoje era o dia de ter coisas em comum com os Nelsons, ao que parecia. – Mari, anda!
A loira bufou, se erguendo.
Samuel saiu com a mesma cara aborrecida de sempre, me olhando como se eu fosse a culpada da seca e da fome do mundo.
-Bora Igor, antes que eu mude de ideia e ligue pro pai e pra mãe e te dedure.
Os quatro estavam lá de pé. Parece que eu tinha sobrado ali. Comecei a pensar em como ia sair dessa sem back up, ligar para Davi foi descartado, mesmo que ele estivesse por perto – o que ele não estava, outro continente era longe o bastante - não tinha nada pior no mundo do que a cara de decepção do meu primo. Sem condições.  
Meus tios viviam há pelo menos seis horas de distância dali, e eu não daria aquela dor de cabeça a eles. Valentina não atendia o celular. Igor, que seria a primeira opção, também estava encrencado, Samuel devia estar o arrastando pra casa agora.
Não havia mais ninguém.
Que ótimo. Eu ia ficar ali. Ser enviada a um presídio. Eu nem mesmo tinha uma gaita, sempre tinha uma gaita nos filmes!
-Alguém vem buscar você florzinha?
Olhei para cima e a atendente da mesa me olhou com um misto de preocupação e reprovação que eu não sabia como ela conseguia fazer. Parecia até meu primo.
Então prestei atenção nas palavras dela. Pisquei aturdida.
-Fui liberada?
-Pagaram sua fiança também, querida.
-Oh.
 Pensei em perguntar quem, mas mudei de ideia. Não sabia quem seria mais bizarro, Nelson ou Samuel me livrando do xadrez. 
Me ergui desajeitada, desejando boa noite a atendente, dizendo que esperaria uma amiga do lado de fora, para dar sossego a ela que me olhava daquela forma maternal, me dando conselhos enquanto liberava minhas coisas que haviam sido confiscadas. Tina não atendeu o telefone, eu não tinha dinheiro suficiente para táxi. Eram quatro da manhã, e eu tinha duas opções, esperar até amanhecer para resolver o que fazer, ou ir para o ponto de ônibus perto, com colam e tudo. Levando em conta que eu tinha uma prova logo no primeiro horário, a primeira opção não daria certo, por isso suspirei e desci pelo estacionamento em direção ao ponto, checando meus ombros por perseguidores.
A situação me deu um certo vazio por dentro. Me senti sozinha. Sem querer pensei em Nelson buscando Mari, Samuel com Igor. Naqueles momentos eu percebia o quanto comigo era diferente. Eu tinha Davi, certo, e meus tios. Mas exceto por Igor e Valentina, não havia ninguém perto o bastante, a um telefonema de distância para me ajudar.
Mesmo Igor e Valentina. Eles eram meus melhores amigos, mas em uma situação como essa eu via que não era a mesma coisa. Sempre teria uma prioridade, os problemas deles. Por mais que eu quisesse, eu sabia que não éramos realmente uma família. Me sentia egoísta de exigir algo deles por isso...sei lá.
Pensei no mesmo momento nas palavras de Mashur, e odiava perceber que ele estava certo. Talvez eu não fosse tão durona o quanto pensava. 
-Pensei que ia passar a noite plantada lá dentro Saki.
De tanto olhar para trás, quase bato de frente com Samuel. Pensei que eles já tinham se mandado. Demorei um pouco para processar o que ele dizia, presa em minha depressão. E de verdade, não estava em clima para reagir. Apenas o ignorei e continuei andando para o ponto.
-Ay! – ouvi a voz de Igor me chamando, preocupação palpável. Eu ainda estava zangada demais com ele por não ter me avisado sobre Samuel vindo, que ele estava na cidade. Ele sabia bem a razão disso. Mesmo que eu soubesse que não ficaria com raiva por muito tempo, provavelmente amanhã teria esquecido, não conseguia ficar irritada com Igor, ainda mais sabendo que se ele não chamasse Samuel, teria que chamar os pais dele, o que seria bem pior. Mas naquele momento, não queria me despedir dele. Queria ir pra casa, deitar na minha cama.
Quase gritei quando uma mão agarrou meu braço no momento em que atravessava a rua estranha. Virei e soquei a pessoa com toda a força que eu tinha até ela me soltar.
-O que pensa que está fazendo, sua louca!?
Respirava pesado e Samuel estava lá, segurando um nariz sangrando, os olhos arregalados.
-O que diabos?! – xinguei, segurando minha mochila contra meu peito. Meu coração ainda batendo forte.
-Que diabos digo eu! – Ele rebateu irritado. – Vai andar para casa? Quatro da manhã!
-Não que seja da sua conta, mas vou pegar o ônibus. – Dei as costas e continuei andando, ainda me recuperando do susto. Até ele voltar a agarrar meu braço e começar a me arrastar. Alguns policiais perto da delegacia se alarmaram. Que ótimo, mal saía de lá e ia acabar voltando. -Me solta! – sibilei. E fui ignorada.
-Você continua o mesmo problema de sempre Saki, nunca muda. Irresponsável, problemática. – ouch. Aquilo não devia me incomodar tanto, deveria estar acostumada. – Era de se pensar que tinha crescido.
Ele conseguiu me trazer de volta ao estacionamento quando consegui me livrar dele, meu braço doendo pelo aperto. Igor saiu do carro rapidamente, os olhos arregalados ao notar algo no meu rosto que eu não sabia o que era. Não sabia se minha expressão naquele momento era assustada, magoada, irritada.
-Saki! – nós três viramos ao mesmo tempo, e outra surpresa, Mari e Nelson estavam ali ainda também. Ele já no banco do motorista, ela vinha andando até nós, o rosto duro, de uma maneira que não tinha visto ainda, e pela cara de Igor, ele também não. – Vamos, te dou uma carona.
Não tive tempo de reagir quando ela pegou minha mão com firmeza e me guiou até o carro, com uma estranha e bizarra gentileza.
-O que pensa... – Samuel começou, mas foi logo interrompido por ela.
-Da o fora ruivo! – Ela pausou na porta, abrindo e praticamente me empurrando para dentro. Eu estava chocada demais para reclamar.
-Deixa ela Sam! – Igor rebateu, segurando o braço do irmão doido dele. A voz firme, e eu sabia que ele estava puto com ele, Igor nunca falava assim com o irmão-herói dele.
Mari pausou na porta do banco da frente, olhando por cima do carro. A voz mais animada.
-Boa noite amor, te ligo amanhã!
Doida.
O carro já estava na estrada quando sai do meu transe.
-O que diabos...
-Coloca o cinto Zuzu. – Obedeci, por que Nelson estava dirigindo como um louco. E talvez por que ainda estivesse em choque com a situação.
-Quatro da manhã. – Nelson murmurava na direção. – De colam, ponto de ônibus, em uma rua deserta. Uma louca.
-Pera ai. – comecei indignada, mas fui interrompida pela doida.
-Não sei como sobreviveu até hoje.
-Eu...
- Pura sorte. Por quê vive sem um pingo de instinto de autopreservação.  – Ele concordou.
- Agora vocês...
- E Igor deve ser adotado, não tem como ele ser irmão daquele grosso.
-Seu cunhado é um completo babaca Mari. – Nelson olhou para a irmã com cara de pena e ela suspirou dramática.
Me calei depois dessa, eles não iam me deixar falar mesmo. E eu não ia abrir a boca para concordar com os dois, que era o caso. Já tinha acontecido vezes demais naquela noite.
Minha vida estava mesmo ficando cada vez mais louca.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Capítulo 7 - Resgates na madrugada



Eu sabia que a ideia da Tina de trazer a Mona-bruxa para casa ia dar merda. Ainda mais quando a vi chegar sozinha sem a ruiva. Eu estava caida nos livros, tentando compensar minhas dormidas na aula para a prova do Mashur no outro dia. Meu professor-pecado estava sendo muito paciente, em vista que minha vida acadêmica se tornava uma curva negativa essa semana, e para piorar, eu mal prestava atenção na aula dele, ou dormindo, ou olhando para o formato do queixo dele, ou como ele tinha certo balanço quando usava o apagador... essas coisas distraem demais.
Haviamos nos tornado próximos. Infelizmente, como professor e aluna. Eu notava que ele se preocupava comigo, assim como com o Nelson. Talvez por que ele também não parecia nada bem esses dias. Olheiras, dormindo na aula, não me chateava. E a prova que ele estava com algum problema era tão grande, que Mari havia largado do meu pé e nossa luta interna sob os olhos ingênuos de Igor, para ficar com ele no intervalo, conversando preocupada. Acho que por isso Igor estava meio livre e me ajudando no caso Valentina.
O caso é, não meu amor platônico só crescia. Ele era lindo, inteligente, tinha um coração gigante, bem-humorado. Só meio triste as vezes, eu meio que notava. E isso ainda me fazia mais encantada, apaixonada, enamorada, essas coisas. Ele me acalmava, e isso, meus caros, era um milagre.
O fato é. Eu não podia tirar nota ruim e sujar com ele. Eu tinha que me mostrar um pouquinho, sabem como é. Além disso, eu tinha que manter minha bolsa, sempre frisando isso. Sou paranóica com isso.
E lá chegava a mona-louca, doidona, se agarrando com uma morena para dentro da minha casa. Não que eu ligasse, ao menos ela me deixava em paz. Claro que ela me chamou para participar da festa, a que eu recusei de forma educada (só que não tão educada) e mandei ela ir para aquele lugar, além de perguntar onde tinha enfiado a minha  amiga ruiva que havia saido de casa prometendo que não colocaria alcool na boca.
- Se divertindo.
Foi isso que a Mona-loira falou.Se divertindo.
Tenho medo dessas palavras somadas com o nome Valentina no estado atual dela pós- Diego.
Liguei para ela, sem sucesso, e apenas recebi uma mensagem to viva e que dizendo que Freud explica, o que não entendi nada. 
Voltei a estudar, ou tentei, fiquei vendo unicórnios, Igor me ligou falando que Mari isso e aquilo, e aquilo outro.
Acabei apagando.

Acordei dormindo em cima dos livros, sentada na mesa da sala. Meu celular tocava descontrolado e atendi ainda com um pé no sono:
- Ayz! – a voz veio com uma risada alta, acompanhada por um som de fundo ensurdecedor.
- Tina? 
Ela respondeu com outra risada estranha.
- O mundo está girando Ayz! Ele é tão colorido, queria que o Di pudesse ver isso...
Fiquei totalmente alerta e me ergui de um pulo.
- Tina? Onde você está? 
- No pultz. Nome estranho pra uma boate... – ela começou a tagarelar e do nada a chorar muito.
- Fique aí Valentina. – ordenei para sua voz chorosa. – Estou indo buscar você agora mesmo.
- Valentina, você nunca me chama de Valentina...
Desliguei o celular e corri ao quarto ainda atordoada, derrubando livros no processo. Peguei um short qualquer da gaveta e uma camisa de babados, dei uma rápida olhada no espelho o suficiente para ver que havia uma marca de arame de caderno em minha testa. Resmunguei, peguei a bolsa e chamei um táxi.
Pultz, codinome para o inferno. Logo que entrei lá descobri que meus tímpanos nunca mais seriam os mesmo. Liguei para uma Tina chorosa e ela me disse que estava perto dos banheiros, do outro lado. Ou seja, teria que atravessar aquele mar de gente que dançava o ritual do acasalamento, entre a fumaça do cigarro, com diversas mãos tentando me apalpar. Valentina, você vai me dever isso o resto da sua existência ruiva!
Consegui passar a custo pelo mar de gente, entre o medo de ser sufocada. Encontrei a ruiva chorona e bêbada largada em um canto perto do banheiro, sentada na escada. Quando me viu ela começou a chorar mais ainda e quando me abaixei para ajuda-la a se levantar ela agarrou-se a meu pescoço como se fosse uma erva daninha.
-Ayzuuuu!! Por que ele terminou comigo? O que eu fiz? Eu devo ser tão irritante...
- Geralmente não. – respondi e logo me arrependi do tom seco. Bom, ela estava sendo irritante agora, mas isso não é comum. Vamos Ayzu, sua amiga está mal... – Você é sexy e inteligente... qualquer cara iria querer você entendeu?  Diego é só um moleque. Não conheci você insegura assim Valentina!
Ela fungou ainda abraçada comigo.
- Sexy?
- Sim. – eu ri.
- Sexy como uma mulher fruta?
- Não. Com elegância, como a Satine de Moulin Rouge. – respondi com veemência e funcionou, ela riu e me largou. Ela estava péssima mesmo, mas ao menos havia parado de chorar. – Levanta essa cabeça criatura, e vamos sair desse lugar antes que eu sufoque em fumaça.
Nos erguemos de qualquer jeito e amparei como um soldado de guerra. Várias meninas vomitavam perto do banheiro e rezei para a ali do meu lado não aderir a moda. Me apressei e fui por uma rota mais perto da parede. Valentina era muito grande pra mim, e eu lutava para apoia-la. No meio do caminho quase cai ao ver uma cena um tanto...incomum.
Eu vi Nelson.
Beijando um cara.
Não, beijar era pouco, eles estavam se engolindo!
No instante em que ele cruzou com meus olhos eu percebi duas coisas:
1- Ele havia me reconhecido.
2 - Ele não fazia ideia que a irmã dele havia me contado que ele gostava de caras. O que queria dizer que minha visita no quarto dele havia ficado em segredo.
Ele empurrou o cara que não vi o rosto, assustado, e fiquei mais vermelha que o cabelo da sujeita que eu carregava. Aquilo não era da minha conta, apenas continuei andando. Avistava a porta quando fui interceptada. Me puxaram de Tina e ela quase caiu. A vi por um momento atordoada me procurando e gritei seu nome. Senti que alguém me jogava contra a parede e um hálito etílico se aproximou demais do meu rosto.
- Ora ora, quem eu encontro por aqui!Ayzu! -  não conhecia o sujeito, ou lembrava se conhecia. Mas ele me conhecia.
E parecia que queria conhecer mais.
 Sua voz era alta e embolada, e eu estava bebendo litros só com o hálito dele.
Tentei empurrá-lo mais uma vez e ele agarrou minha cintura e tentou me beijar.
- Solta!– Eu ia  socar aquele sujeito mas tanto, mas tanto...
- Ouça a garota. – uma voz acompanhada de um braço forte empurrou o mala de cima de mim. O garoto desequilibrou e caiu em cima das mesas. Senti uma mão forte em meu braço me puxando pra saída.
- Espera! A Tina! – gritei me desprendendo da mão e olhando ao redor. Avistei minha amiga no mesmo lugar que havia a deixado. Puxei seu braço e reboquei. Meu salvador a apoiou do outro lado e saímos no meio das luzes piscantes e da fumaça;   
Já fora respirei o ar puro e frio da madrugada e olhei para meu salvador.
- Professor... Obrigada...
Mashur me encarava com uma expressão estranha, e eu só me desmanchava de gratidão. Nos encaramos por um instante, até que minha amiga ainda entre nós virou o corpo para frente e vomitou. Obrigada mesmo Tina, estragando climas como ninguém.
- M.me desculpem. – ela falou soltando do braço de Mashur e limpando a boca. Ele sorriu balançando a cabeça.
- Vamos vocês duas, tem um café aberto ali na frente. – sua voz era suave mas autoritária. Caramba, ele parecia irritado. De uma forma linda e contida. Engoli em seco e enrolei meu braço ao redor da Tina, embora ela já estivesse mais sóbria com o ar frio.
Caminhamos atrás do homem até a cafeteria que ficava na esquina da boate. Entramos no ambiente quase vazio, a não ser por um grupo que comia panquecas em uma mesa, e os garçons que pareciam jogar papo-fora no balcão. Quando entramos um deles veio nos atender e Mashur falou com ele enquanto eu ajudava minha amiga a sentar e me depositava a seu lado. Ela recostou a cabeça no tampo frio, e em poucos segundos a infeliz estava dormindo. Que ótimo. Legal mesmo.
- E então? – a voz suave me fez olhar para cima de imediato. Mashur me encarava com uma sobrancelha erguida enquanto sentava do outro lado da mesa, em frente a nós duas. 
– Noite agitada? - Eu ri sem graça. Ele continuou me olhando com uma cara de pai preocupado e suspirei encarando minhas mãos na mesa.
- Eu sei que não tenho o direito de me meter na sua vida Ayzu, mas nunca imaginei que encontraria você em um lugar como aquele, ou a Valentina. Aquela boate não é um lugar para se frequentar sozinha.
Continuei mexendo desconfortável meus dedos: - É q.que a Tina ligou, e ela estava chorando, eu não podia deixar ela sozinha nesse lugar. – soltei baixo.
- Entendo. – ele assentiu – E não precisa fazer essa cara, não é o interrogatório. Só fiquei preocupado, eu imagino que você não seja dessas coisas. Um lugar daqueles não é para você.
Entre a emoção de ver ele preocupado comigo, pensei o que ele estaria fazendo lá, se o lugar era realmente perigoso. Eu ouvia coisas sobre pultz, claro. Drogas rolando solta e encrenca. Nem imagino no que deu na desmiolada da Valentina para ir a lugar daqueles, mas e Mashur?
Eu queria muito perguntar, levantei os olhos soltando o ar mas o jeito como ele me encarava me paralisou. Meu coração disparou. Na mesma hora chegaram os cafés e as panquecas e ele fez um floreio com a mão me mandando pegá-las. Assenti e beberiquei o café o encarando através da franja. Ele parecia me analisar e já não aguentando mais o olhei sugestivamente.
Ele riu envergonhado: -Desculpe, mas estou só reparando que você escapou de um assédio e não parece nenhum pouco nervosa.
Era isso? Depositei o café na mesa e suspirei: - Era só um idiota. Não é como se eu estivesse com medo dele. – Só um pouquinho.
- Você é muito imprudente criança. – ele balançou a cabeça. A palavra criança era um balde de água fria em mim. – O mundo é bem mais perigoso do que você imagina Ayzu. Ele pode engolir você.
- Ele te engoliu? – Supus. Eu não queria ser rude, mas odiava ser subestimada. Sua expressão caiu um pouco e me arrependi do que falei. Droga! Ele havia me salvado e a pele branquela da Valentina, eu podia ser um pouco mais compreensiva e ouvi meu merecido sermão. Ia abrir a boca para me desculpar, mas ele foi mais rápido.
- Eu já vivi muito Ayzu. Eu já vi muito. Eu sei que você se irrita quando eu a trato como criança, mas para o mundo, é o que você é ainda. Eu realmente gosto de você. Acho você inteligente. Mas você também ainda é muito ingênua. E sozinha, apesar de querer mostrar para todo mundo que não se importa com isso. Eu sei disso, por que fui igual a você um dia. Acredite em mim, eu sei o que você está passando.
Continuei o encarando ainda paralisada. Minhas mãos tremiam levemente e as fechei em punho. Podia sentir meus olhos ardendo e os abaixei rápido. Eu queria falar um monte de coisas, mas só murmurei um “eu sei” e continuei a encarar minhas mãos com os olhos marejados. E então, do nada, senti a mão dele na minha cabeça. Abri os olhos espantada e o encarei. Ele sorria.
- Tudo bem Ayzu. Não precisa ficar assim. Coma, eu levo vocês pra casa tudo bem? – sua voz era carinhosa, como se ele falasse com uma criança pequena. Senti meu rosto pegar fogo e assenti rápido. Ele riu da minha expressão e voltou a comer a sua panqueca, ignorando as sensações que o toque me causou. Era um tipo de carinho que eu raramente me deixava sentir. Diferente dos abraços escandalosos do Igor e da Valentina, ou mesmo do carinho meio contido dos meus tiose de Davi. Era algo que me aquecia por dentro, que me fazia me sentir protegida.
Senti um sorriso involuntário nos meus lábios e voltei a comer com calma. Ele nos levou ao fim até o carro, arrastando uma Valentina adormecida e nos levou até em casa. Durante todo o percurso não falamos mais nada, e eu só queria que ele me tocasse de novo do mesmo jeito. Já estava na minha rua, logo acabaria e me desesperei. Não queria que ele fosse embora! 
Ele me ajudou a tirar Valentina do banco de trás e a levou nos braços até o sofá, e eu nem podia acreditar que ele estava ali, no meu pequeno apartamento, naquela sala minúscula, totalmente fora de contraste com todo o ambiente. 
- Ela vai ficar bem? – ele perguntou me olhando colocar o cobertor em uma valentina que roncava.
- De ressaca amanhã, arrependida, envergonhada... Mas vai sobreviver.
Ele assentiu e o levei até a porta. Foi quando me lembrei.
- Hei, professor, eu sei que é atrevimento, mas o Senhor falou que a pultz era um lugar perigoso.
- Sim.
- O que o Senhor fazia em um lugar daqueles?      
Ele pareceu pego desprevenido com a pergunta direta. Pensei de imediato que ele fosse me dar um passa fora, mas continuei o encarando curiosa. Ele corou? O professor Mashur? Não é possível!
- Na verdade, situação bem parecida com a sua, estava procurando um amigo meu. – Ele falou coçando a nuca desconfortável.
- Ah, e o encontrou? – Será que eu cairia nessa? Ele deu de ombros e suspirou negando com a cabeça. Parecia bem triste e tive uma vontade tremenda de lhe fazer um carinho, mas me contive e prendi as mãos com força cruzando os braços. Quando ele voltou a me olhar deu um sorriso que acabava com minha alma.
- Boa-noite Ayzu, é melhor eu ir agora.
-C.claro. – Reorganizei meus pensamentos. – E muito obrigada. Mesmo.
Ele assentiu e seguiu para seu carro. Eu acenei em resposta e ele parou no último segundo antes de entrar e sumir na madrugada:
- Nos vemos amanhã. E espero que tenha estudado para a prova. – ele riu e eu gelei.
A prova.
Mas que porcaria!  

Capítulo 6 - Valentina pirou!

Bate palmas quem já cometeu um assassinato mental.
Ultimamente, eu venho fazendo muito isso. Mas não um simples assassinato, não. Do tipo doloroso e lento...muito lentamente...lentamente...
- Você está com aquele olhar de novo.
Igor jogou uma cereja na minha cabeça do balcão e acordei da minha fantasia para terminar de organizar minha pilha de contas. Geralmente quem fazia isso era Tina. Ela era a responsável com nosso dinheiro, por que por mim, eu não sabia nem fazer uma transferência pela internet sem acabar com o dinheiro desviado para a puta que pariu, e não podia ir enfrentar uma fila de banco sem acabar me metendo em algum problema por sonhar acordada.
Pois é, as coisas mudam. 
- Continua comendo seu bolo calado. - resmunguei tentando colocar alguma ordem naquela papelada dos infernos. - E não sei do que está falando.
- Sabe sim. - Igor digitava as contas em uma tabela, bendito, para me ajudar a colocar coerências antes que acabasse despejada. Eu achava um milagre a fulaninha ter liberado ele uma tarde inteira e agora já parte da noite sem ter ligado ainda. Até aquela psicopata estava com pena de mim eu acho.  Claro que ele não saia do celular mandando mensagens, mas ao menos ele estava ali comigo, firme e forte, enfrentando aquela crise chamada: Valentina deprimida. 
É, meus amigos. Se vocês estão imaginado a depressão dela do tipo que a encontrei na primeira noite, entre sorvetes e filmes demodé... quem dera. Ela tinha dado uma bela de uma pirada, isso sim. Há uma semana que Valentina não pisava na universidade, passava a noite em baladas, bebia até cair e eu ter que ir buscar ela. Sem falar que ela não estava dispensando ninguém. Eu estava dormindo tanto quanto ela, esperando no telefone a qualquer momento alguma desgraça, isso quando não ia com ela para evitar alguma merda maior. E isso há uma semana dos testes na universidade, onde eu tinha que manter minha bolsa, e elas as notas dela, ou seu pai, que parecia saber das noticias mais rapidamente do que Batman na torre da liga, iria bater no nosso apartamento para saber que ET abduziu sua filha. E acreditem, ser visitada pelo pai da Valentina não era uma coisa boa, ainda mais se ele descobrisse da tatuagem com que ele havia aparecido esses dias, e que eu vinha rezando que fosse temporária. O homem era assustador, e de quebra podia acabar trazendo a sobrinha dele, que sempre arranjava desculpas para nos visitar. E claro, para tentar me agarrar ou arrastar Igor para uma boate Gay, por que dizia que ele era muito fofo para ser hétero.
Sim, ela era pirada. Eu não queria uma visita dela, de jeito nenhum. 
Sem falar que não queria acabar tendo noticias do corpo da Tina boiando no rio com os sumiços dela. E tudo aquilo era culpa de uma pessoa apenas. 
- Você quer matar o Diego, deve ter matado ele mentalmente agora mesmo.
Esse maldito me conhecia mesmo bem.
- Mas Valentina não quer que a  gente apronte com o Zé Bostola, o que não consigo entender. -  Ele resmungou. - Quer dizer, o cara chifrou ela.
- Não fale assim. - me mexi incomodada.
- Ok. O dito rapaz praticou atos sexuais com outra fêmea mesmo estando em compromisso com Valentina. Melhorou?
Apenas revirei os olhos. Ele não precisava me lembrar disso. Eu que tinha consolado Valentina por uma noite inteira enquanto ela me contava a história e ficava perguntando sem parar se tinha algum problema com ela. Bom, era tipo a terceira vez que isso acontecia, e dessa vez, ela estava noiva do sujeito.
"Filha, o problema não é você, e sim seu dedinho podre. Só se apaixona por mané."
- E além de tudo, passou dias aqui, sabendo que ia terminar com ela quando fosse embora, se aproveitando. Não entendo por que ela protege ele ainda. Mulheres são malucas.
- Me tire da lista. Ele não deveria ter saído daqui sem ter perdido uma parte importante do corpo, em minha opinião.
"Do sistema reprodutor, de preferência."
Igor tremeu e me encarou pálido.
- Eu tenho muito medo de você. 
Não tive tempo de revidar. A campainha tocou e minha ex-responsável amiga veio da cozinha saltitando com uma roupa pronta para matar na balada, salto quinze, mundana e em toda sua falsa alegria para abrir a porta. A porta abriu com estrondo e entrou uma garota loira com malas, óculos colorido e roupa de motoqueira vermelha.
E não, não era Mariana. Pela primeira vez na vida, eu preferia que fosse ela. 
- Valentina! Priminha! Me chamou, eu vim!
Eu não estava acreditando. Eu iria matar aquela ruiva, eu não estava acreditava que ela havia chamado aquela companheira de guerra dela, dos tempos em que ela era rebelde sem causa.
Igor me olhou desesperado, os olhos arregalados. Eu não estava diferente. Nos erguemos ao mesmo tempo procurando uma rota de fuga.
- Janela! - sibilei.
E corremos para lá. Só que o maldito me empurrou para ir primeiro, e não tive tempo de reagir. Só ouvi o grito escandaloso.
- Saki!!
Senti dois braços me puxando pela cintura por trás e lá estava eu envolvida em um perfume forte, com dois peitos me sufocando.  
- LARGA! LARGA!
- Saki, isso não é jeito de falar com sua amiga. - ela continuava se esfregando, e eu perdia meu ar. - Você continua tão fofa!
- Socorro! Soc...argh!
- Cadê o Igorzinho? 
- Larga ela Monalisa. - Ouvi a voz divertida de Valentina e me controlei para respirar quando me vi livre daquele monstro que ela chamava de prima. Fuzilei Valentina que me pediu desculpas com os olhos, e pela expressão nervosa dela, minha cara devia estar no terceiro grau demôniaco meu. - Mona, vai guardar suas malas vai... - pediu nervosa.
A loira me deu uma ultima olhada e coloquei uma cadeira na minha frente por precaução a advertindo com um olhar. Ela apenas riu e me mandou um beijo antes de sair arrastando a mala murmurando coisas como "fofa", "arredia" e "inocente."
Quando me vi livre do perigo encarei a loira e ela coçou a cabeça.
- Você não fez isso. - Sibilei.
- Ou ela vinha, ou meu pai. Pelo menos ela pode...hum...encobrir esses pequenos probleminhas passageiros...Ayz...
- Não.
- Por favor... - Ela encheu os olhos de lágrimas. - É só uma semana, tudo vai melhorar, eu só preciso disso sabe...
- Não!
- Ayz...
Oh meu Deus, ela estava chorando. Fechei os olhos sabendo que me arrependeria amargamente. 
- No seu quarto. Se ela aparecer no meu...
- Eu prometo! 
- E você vai parar de beber para morrer, e não vai usar nada que ele lhe der!
- Claro!
Não acreditei muito. Valentina sumiu da minha vista sabendo que sobraria para ela quando me tocasse que tinha acabado de fazer uma escolha suicida.
Suspirei tentando me acalmar.
Só então virei para a janela.
- Barra limpa, seu covarde!
Igor pulou de volta para a sala com cara envergonhada e sujo de terra. Nos encaramos por um bom tempo. Alguém teria que pagar por aquela situação, e só havia um culpado. Um culpado que tinha um carro que amava mais que a própria vida. 
- Eu arranjo um carro para sexta. - Igor falou lendo meus pensamentos.
- Eu consigo o spray e o álibi.
Eu podia não matar Diego, mas nós daríamos a ele uma aula de arte.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Capítulo 5 - Pode piorar? Claro!


Sabe aquele conceito de que nada mais pode dar errado? Isso não existe. Já dizia Murphy, tudo pode piorar. Ele entendia bem dessas coisas.
Vejamos bem, eu estava caidinha por meu professor de cálculo, meu melhor amigo estava namorando uma maniaca e  irmã do meu segundo maior arqui-inimigo. 
O primeiro vocês vão ficar sabendo ainda, porque com a sorte que eu tenho, não tenho dúvidas que logo ele dá as caras por aqui.
E claro, o dia tinha que ser ainda mais maravilhoso com um teste surpresa, que como todo digno teste surpresa, ninguém havia estudado, e logicamente que era do professor mais pé-no-saco de toda a ala de engenharia daquela universidade.  O cara conseguia ser pior que o Nelson, tanto que nem ele o aguentava. Sai da sala sentindo que minha vida acadêmica tinha acabado de levar um tiro na testa, e veio outro golpe.
Sabe quando você só sente falta das coisas quando elas somem? 
Não ignore essa frase de radio-novela, porque é a verdade da vida. Nada como a falta de um idiota lhe abraçando no corredor lhe apelidando de Hobbit ou algo assim para comprovar isso. Igor estava ocupado demais se pegando com a loira do banheiro...
Sim, eu estava com ciúmes do meu melhor amigo. Acontece quando você só tem dois amigos e um primo-irmão no mundo que de fato se importam com você. Agora meu primo-irmão estava na Africa, meu melhor amigo estava em algum canto escuro com uma psicopata e minha amiga devia estar em casa batizando a mesa, balcão e paredes com o namorado mané dela.
E eu, claro, em toda minha maturidade reclamando da felicidade alheia.
"Recalque, eles dão esse nome."
Lá vinha minha voz inteiro me encher o saco, devia ser a fome, era isso. 
"Pelo menos você pode pegar no pé deles no cinema hoje. Faça essa ladra de amigos pagar. "
Claro consciência, mas ela não me roubou ele. Ele sempre será meu melhor amigo.
"Se prefere acreditar nisso. É para ela que ele vai dar os biscoitos em forma de bichinhos, vai contar sobre Star Wars, e ligar quando sair os episódios de Game of Trones..."
Ok, cale-se. Preciso de um psiquiatra.
"Você precisa é de sexo."
- Chega! Eu não preciso de Sexo!
Um silêncio repentino.
Virei meu rosto mortificado ao notar todo mundo me olhando. Eu tinha mesmo falado aquilo em voz alta. Atitude mais madura, continuei tomando meu suco e fingindo que nada aconteceu.
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Como você pode  prever que a namorada de seu melhor amigo vai aprontar para seu lado:
1 - Ela te odeia mas está te tratando bem.
2 - Ela passa de repente a surgir em todos os lugares que você está no decorrer do dia. E sempre acontece algo "acidentalmente estranho" nesses momentos. 
3 - Você é trancada misteriosamente no banheiro da universidade. 
4 - Ela te chama de "Zuzinha" na frente do retardado do namorado, quando na verdade os olhos dela dizem "vou te partir em pedacinhos. "
5 - Um balde de água (COMO É??) quase despenca na sua cabeça quando você está passando pela pilastra do segundo andar. O andar de cima, o do curso da vadia.
Mas claro que isso tudo podia ser apenas coincidência.

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Já passava das seis quando eu consegui me livrar da universidade. Eu procurava Igor, ia para casa dele me arrumar por lá mesmo, já que minha casa devia estar sendo ainda muito utilizada, segundo a mensagem de Tina para que eu não me aparecesse por lá tão cedo. Eu tinha roupas na casa de Igor para essas situações, eu ia para lá as vezes assistir filme, jogar video-game, falar das frustrações... bons tempos.
Se bem que infernizar a namorada dele parecia mais divertido.
"Super madura."
Peguei o celular para ligar para Igor quando chega a mensagem do dito cujo.
"Estou do andar de baixo, saindo do laboratório. O elevador está quebrado, pega o de serviço."
Revirei os olhos.
"Te espero aqui."
Segundos depois.
"Preciso de ajuda para carregar a gaiola do Dallas e o material."
Que ótimo, o rato que ele usa no projeto dele.
"Se vira."
Sou uma boa amiga.
"Por favor ^^'  :( "
Mandou carinha triste.  Tsc.
"Apelão. To indo."
Preciso aprender a ser durona, por Deus.
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A ruiva me olhou atenta.
- E o que aconteceu?
- Entrei no elevador, você estava nele. Dai ele parou. - completei sentada no chão com a garota inglesa a minha frente curiosa, e graças ao bom pai, mais calma.
- Mas não entendi, por que diz que foi a namorada dele?
Tirei meu celular e mostrei para ela enfadada a mensagem.
"Pegadinha do malandro Zuzinha!"
Ela arregalou os olhos verdes.
- Ela...
- Usou o celular dele, me fez vir até aqui e deve ter parado o elevador pelo lado de fora.
- Mas seu amigo deve perceber que você não apareceu.
Dei de ombros.
- Ela deve ter mentido. Dito que eu desmarquei, e ele caiu feito um trouxa, como todo cara apaixonado.
Ela assentiu como se entendesse.
Ficamos em silêncio por um tempo. Já devia passar das onze, eu acreditava. Não queria dormir naquele lugar.
- E você? O que fazia nessa ala?
Antes que ela pudesse responder, ouvimos um barulho e o elevador deu um solavanco que nos colocou de pé e começou a se mover. Ela rasgou um sorriso para mim e suspirei aliviada quando vi que finalmente íamos sair dessa.
Nunca fiquei tão feliz em ver a cara do zelador da universidade.
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Me despedi de Sarah no ponto de ônibus para o campus, enquanto ia pegar um táxi para minha rua, a não ser que quisesse ir de bicicleta e meu corpo surgisse no rio meses depois.
Eu estava exausta, puta da vida, só queria um descanso e um plano para foder com a vida da Mira. Mas claro que quando as mensagens começaram a pipocar eu vi que as coisas estavam bem piores do que imaginei. Haviam ao menos três ligações de Igor, e doze da Valentina.
Me senti mal por pensar que ele não teriam notado minha falta, isso até ligar para meu melhor amigo e ouvir a voz irritada do outro lado da linha.
- Ayzu.
- Igor! Eu ti...
- Só quero dizer uma coisa. - Ele me cortou com um suspiro. - Eu gosto dela Ayzu. Se não queria ir, era só falar, e não deixar a gente plantado.
- Quer me escutar...
- Eu quero que isso dê  certo! - Ela completou frustrado, como se não me ouvisse. - Ela gosta de mim, de verdade, e eu dela, e isso nunca aconteceu antes então eu só... Você é minha melhor amiga, eu quero muito que vocês se deem bem...Mira me disse que você não gosta dela.
Eu abri minha boca sem saber o que falar.
-Por favor Ayzu, apenas...tente.
Engoli em seco. Não sabia o que falar com aquilo. Ela era uma vadia. Ela tinha me trancado na porra de um elevador. Declarado guerra.
Mas Igor era meu irmão. E gostava daquela psicopata.
- Certo. - falei debilmente e ouvi um suspiro aliviado, a tensão da voz dele sumindo.
- Ok! Amanhã te ligo, tenho um monte de coisas para te contar.
Quase sorri com a voz animada dele, apenas ouvi até ele desligar e suspirei, esquecendo até as ligações da Tina. 
"É  filha, sua vida está se enrolando mais do que seus fones de ouvido na bolsa."
Mas ainda tinha mais merda para fechar o dia com chave de ouro. 
Quando chego na porta de casa e pago o táxi estranho em não ver o carro de Diego na porta, afinal, Valentina disse que ele só iria embora no outro dia.
Entrei e todas as luzes estavam acesas, e haviam coisas quebradas no chão, um vaso, uma cadeira virada.
Olhei espantada.
- Valentina!
Chamei e ouvi um fungado que quase me mata do coração vindo da escada logo a minhas costas, virei e a vi no topo. Moletom furado, cabelo bagunçado, pote de sorvete na mão. Olhos inchados.
- Ele terminou comigo. - Falou com a voz baixa me olhando com os olhos já cheios de lágrimas.
"Nunca diga que não pode piorar."
Valeu mesmo Murphy. Legal.   

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Capítulo 4 - Sarah e a loira psicopata

Nunca diga que não falta mais nada acontecer.  É sério, me prometa. NUNCA fale isso.
Ok, você não deve estar entendendo nada. Nem eu, na verdade. Nem eu sei como fui findar o meu dia presa nesse elevador com uma  estudante de intercâmbio de Londres que eu nem conhecia até horas atrás chorando e batendo nas paredes.
Ok, eu sei. A "bitch" da namorada (isso, namorada agora) do meu melhor amigo me prendeu aqui. 
-We will die! 
Aquilo estava me dando dor de cabeça. Sem falar que eu tenho pavor desses acontecimentos, estou tentando não pirar, mas estou para me juntar com a garota e começar a encomendar minha alma. Por que se depender do zelador da minha ala, com seus fones em último volume, Tina que não vai sentir minha falta por estar transando com Diego como coelhos, e meu melhor amigo que pensa que fui para casa... Vamos apodrecer aqui. 
E para piorar, a criatura não se cala e respira para que eu pergunte se alguém vai notar que são 11 da noite e a individua não pisou em casa. Com sorte ela é diferente de mim, tem uma vida social, amigos, essas coisas e tudo mais. E não apenas dois amigos na cidade.
Ou, em meu caso, no mundo.
- Se acalme mulher!  - Me levantei de onde estava sentada no chão de metal frio, puxei a criatura pelos pulsos e me estiquei para lhe mandar um tapa no rosto. Vi aqueles grandes olhos verdes arregalados cheios de lágrimas, os meus dedos marcados na pele branca-fantasma, os cabelos ruivos e nos ombros ondulados já estavam uma bagunça grudando no rosto miúdo. Mas ela se calou, e para minha surpresa parou de chorar.
- Thank you... Obrigada. - ela falou com o sotaque forte, ficando vermelha e sentando no chão acompanhada de mim, de lados opostos uma para outra nos encarando. Aqueles olhos grandes e inocentes assustados deviam ser o reflexo dos meus.
- Sorry.
- Tudo bem. - Ela sorriu de leve. - Sorry me too. Me desculpe também.
Ficamos em silêncio, pela primeira vez desde que o elevador havia parado há duas horas. Ela fungou um pouco e comecei a reparar melhor na minha colega de má situação. Ela era pouca coisa mais alta que eu, magra e parecia uma fada, ou um fantasma, do tipo que é tão delicado que parece que vai se quebrar facilmente. O que me deu mais pena de ter estapeado a criatura. Então resolvi ser simpática.
- Ajuda se não pensar onde está.
Ela assentiu fechando os olhos.
- When i was a child... - ela falou, e então balançou a cabeça. - Sorry. Quando eu era criança, meus primos me trancaram no armário em uma brincadeira... - Ela voltou a fungar. - Eu odeio lugares fechados!
- Família boa a sua. - soltei sem querer e ela riu. - Eu fiquei uns tempos em um hospital quando era mais nova, só não gosto de ficar confinada.
Ela assentiu sem perguntar nada.
- Alguém vai sentir sua falta, ehr...
- Sarah. My name is Sarah. - Ela sorriu de forma fraca e me estendeu a mão pequena. Ela usava um vestido florido enquanto eu parecia que tinha saído de um passeio a praia, totalmente desarrumada. Era um contraste, mas ainda assim tínhamos alguma coisa...parecida.
Oh, os olhos dela. Tinha uma coisa familiar ali.
- Então, Sarah, alguém vai sentir sua falta em casa?
- My friend, maybe.
- Ah é, você não tem família aqui... - falei pensando alto.
- E nem em Londres. - Ela falou de forma melancólica. - Meus pais morreram há alguns anos, e meu irmão mora nos EUA.
Então era isso. Aquilo nos olhos.
- Que chato. - Falei sem saber o que dizer. Sinto muito não, por que eu odiava isso, quando diziam para mim.
- É sim. - Ela mordeu o lábio e suspirou. 
Fiquei mal de ver ela assim. Talvez fosse a situação toda, mas Sarah parecia ser uma guria legal sabe. Eu sabia umas coisas sobre ela, de ver por aí. Lembro que Igor havia falado dela por uns tempos, quando ela chegou, mas nunca soube por que ele desistiu de se aproximar dela. Quer dizer, ela não parecia ser louca por animes, gostar de bandas de rock, ou ser falante. Nem era excepcionalmente linda, como Mira, mas havia algo nela que me fazia vê-los juntos. Ela estudava música, tocava violoncelo ou violino, não lembrava bem, e morava perto do campus também. Não tinha muitos amigos além de uns intercambistas da Coréia,e eu nem sabia por que. Ah sim, e era super atrapalhada. Eu via ela tropeçando por aí por nada, bem semelhante a... mim.
- Eu perdi meus pais também. - Falei para ela, de uma vez, tomando sua atenção. - Eu tinha dez anos e um cara bêbado bateu no nosso carro. Sobrevivi por sorte.
Ela arregalou os olhos muito verdes, mas então do nada pulou em mim e me abraçou. Me retesei assustada. Eu não era muito dada a essas demonstrações de afeto. Igor me obrigava me agarrando pelo campus, mas é por que ele não tinha medo da morte.
- Não foi sorte. - Ela falou me soltando envergonhado pelo arrombo. - Se está viva, Deus tem algo de importante para você fazer ainda.
Ela estava sentada na minha frente, de pernas cruzadas, aqueles olhos grandes me encarando com um sorriso minimo.
Eu sorri de volta sem graça.
- Uhm, nunca tinha pensando assim... Sou Ayzu! - lhe estendi a mão, esperando alguma pergunta sobre meu nome, mas ela apenas apertou a mão com vontade, talvez feliz por ter finalmente uma possível amiga. 
- Prazer! 
Eu  tive que sorri com aquele entusiasmo.
Era como uma irmãzinha mais nova. Era como Igor.
O que me lembrava.
- Bem Sarah, quer ouvir uma história engraçada? - ela me olhou curiosa e ri sem vontade. - Do porquê  estarmos presas nesse lugar. Vou te falar sobre meu amigo bobão e a loira psicopata que ele arranjou como namorada.
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Eu amanheci quebrada por dormir no sofá. O casal havia ocupado o quarto, e pra variar, cai no chão duro da sala, atrasada como sempre, depois de levar uns gritos da Tina e ter mais um pesadelos.
No caminho para a universidade tive que aturar Igor falando da maluca, sem poder dizer que ela havia declarado guerra para mim. Até por que, estávamos brigando por ele. 
E eu estava um caco, louca para gazetar aula, e sem poder, por que o professor era um sujeito decente, nem essa desculpa eu tinha.
Logo de cara a loira doida estava esperando na entrada e agarrou Igor, quase o derrubando da bicicleta, me dando um aceno com um sorriso que me fez pensar que de fato ela era mesmo bipolar. Eu não me importava muito de ver Igor sendo agarrado. Nunca dei a mínima para ele ter namoradas, só ficava meio rabugenta por perder a atenção dele. O negócio pegava mesmo quando ele inventava de ter as amiguinhas. 
Ah, como eu odiava isso! Ele já possuía um monte de amigos, e tinha a mim e Valentina, por que arranjar mais amigas? 
Do mesmo jeito comigo e com Davi. Davi era meu primo, mas era mais para irmão, e a única pessoa no mundo que me vencia na teimosia e que eu obedecia igualmente. Quando éramos crianças, e até adolescentes, ele e Igor não podiam estar no mesmo lugar comigo sem ter ataques de ciúmes, me xingar sobre dar preferências mais a um do que a outro. Não vou mentir, eu adorava isso. Me fazia me sentir querida... a não ser quando eles exageravam e saiam se engalfinhando.
Mas enfim, o fato é: namore com quem quiser, mas nada de amiguinhos grudados demais.
Mas claro Mira  era um exceção. Ela verbalizou sua intenção de roubar meu melhor amigo. E pela maneira como ela estava agindo, aquela não iria ser uma batalha direta, mas um jogo de estratégia. Mas se ela era campeã do torneiro e vídeo-games, eu era de xadrez. 
- Bom- dia Saki. - Ela me sorriu cínica.
- Bom dia Mariana. - respondi com meu ar de tédio de sempre e Igor me olhou pidão e sorri terminando a frase. Ou eu achei que fosse um sorriso, o que pela carranca de Igor deve ter saido mal.
- Então amor. - Blergh! - Está tudo certo para a gente comemorar o começo do namoro assistindo filme no drive car?
Ela frisou namoro e me olhou. Sério que aquela energúmena podia pensar que eu tinha alguma outra intenção com Igor? Sério, quer dizer, o IGOR! O cara que me fez comer lodo do lago da cidade em uma aposta e tudo mais. Eu não entendia por que era tão difícil ver que eramos amigos e pronto, sem benefícios, sem cores. Isso, quer dizer, era meio nojento de pensar...
- Claro! É aquele filme Ayz! - Ele me cutucou jogando a bolsa em mim, ainda com a loira agarrada nele e acordei dos pensamentos.
-Hein?
-O filme que você queria. Vamos também, você chama a Tina e tudo mais.
Me deu vontade de rir da cara da garota. Ela arregalou os olhos e eles pareciam me queimar.
Igor era muito...inocente as vezes. Como ele convidava alguém que não fosse a namorada para comemorar começo de namoro?
Bom, essa era minha chance de fazer ela sofrer um pouquinho por estar sendo tão cínica.
- Claro.
Ela queria me matar!
Eu amo isso.
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Continua...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Capítulo 3 - Todo mundo odeia os Nelsons!


Se eu ganhasse nota por olhar a bunda do meu professor, esse semestre estava garantido. Nem eu sabia que podia me tornar tão... tarada.
Há três dias que eu ficava o secando quando ele passava no corredor, contando os dias para sua aula, e para completar minha situação calamitosa, ele era uma simpatia em forma de gente. Sabe como é, geralmente a quantidade de diplomas em minha universidade é proporcional ao ego. Mas não era o caso dele e de uns poucos. E isso piorava minha situação. O cara não tinha que ser bonito e inteligente, tinha que ser legal. Isso é para derrubar até gigante, eu então, no alto de meus 1, 50... Zoando, mas deu para entender.
Isso, agora dei até para ficar brincando com minha altura, nem o maldito trabalho que terei que fazer essa tarde com o "papai quero ser Bill Gates" vai mudar meu humor!
Nem o fato que meu melhor amigo me trocou por uma loira bipolar nos intervalos!
Dane-se... Eu não ia ficar com ciúmes, de jeito nenhuma! 
Só um pouquinho vai. Mas eu havia superado isso. Se eu fosse ter ataque de ciúmes com Igor sempre que ele estava alguém, eu já teria me matado. Afinal, a anti-social sou eu.
Estava eu, olhando de canto de olho meu melhor amigo na zona inimiga quando ouço aquela voz macia ao meu lado.
- Cadeira ocupada?
- Se existir fantasma nessa instituição... - resmunguei de mal-humor até me virar e dar de cara com... - P.professor! 
Bom, está na hora do céu cair sabe. Seria bem adequada e me poupar do constrangimento.
- Desculpe! Foi mal! Perdão! - comecei a soltar nervosa, arregalando meus olhos já não tão pequenos. Ele apenas riu e sentou na cadeira de frente a minha na mesa metalica da cantina. Eu estava na cantina do andar inferior. Minha universidade possuia quatro andares naquele bloco, o meu era apenas de Engenharia, e Igor sempre atravessava o campus para vir lanchar comigo (agora para lanchar com a sujeitinha que fazia engenharia de produção), apesar de eu achar a comida da ala dele bem melhor. Enfim, a cantina de baixo era uma área  com várias mesas de metal com quatro cadeiras em cada , e alguns quiosques espalhados. Era mais bagunçado do que a do andar superior, que era uma grande área cheias de mesas de madeira e self-service.
Mas deixando esses detalhes de lado, por que meu professor indiano estava sentado em minha frente. Provavelmente por que todas as outras mesas estavam ocupadas, mas tudo bem.
- Geralmente os professores comem na outra cantina. - soltei sem querer e me xinguei. Eu parecia rude, sempre. Mas ele não parecia irritado, apenas colocou seu suco e seu sanduiche natural na mesa e sorriu.
- Aqui tem mais ar fresco.- Ele respondeu. Seus movimentos eram elegantes, e tentei não ficar seguindo-os como uma retardada.  
- Ah.
"Ah. Ótimo. Eu e meu repertório magnifico."
- E a comida é melhor. - Ele cochichou. - Eu tenho minhas dúvidas sobre a cozinheira do andar de cima sabe...
O encarei incerta e vi ele piscar provando que estava brincando. Abaixei a cabeça e mordi meu sanduiche assentindo.
Putz, eu não sabia o que falar. Pelo jeito eu era o tipo de sujeitinha que quando ficava apaixonada travava. Eu nunca fui a pessoa mais falante do mundo, mas agora parecia uma muda.
O que ele veria em mim, afinal?
Eu era a aluna mais problemática possível, vivia desafiando professores que me enchiam a paciência. Usava roupas com estampas de bandas, muitas vezes, ou desenhos animados. Nunca usava salto, meu cabelo não era liso nem cacheado como o da Tina, era um meio-termo estranho, e não tinha corte definido. Eu era meio fantasma. 
E meu humor não era famoso por ser o mais simpático com todos. Eu podia ser bem legal, admito. Se eu quisesse. Mas eu era mesmo uma baita de uma sarcástica.
- Um milhão pelos pensamentos.
- Não valem um centavo. - respondi balançando a cabeça.
- Respostas rápidas. - Ele assentiu ainda com um sorriso leve, enquanto comiamos. Fui ficando mais a vontade. Parecia um poder dele e sorri também. - Então, Ayzu, me fale sobre essa universidade. Afinal, você sabe, me aproximei apenas para coletar informações secretas. 
Ri do seu tom brincalhão. Algumas pessoas olharam para a mesa, estranhando eu não estar com Igor, ou talvez eu estar rindo, eu talvez estar sentada com alguma pessoa. E claro algumas meninas me olhavam sem entender o que ele fazia falando logo comigo.
" Vadias."
Meu lado que queria as ver se queimando me fez sorrir mais e comecei a falar.
- Nunca pegue o lanche do professor de Garcia da geladeira da sala dos professores, ele pode decepar suas mãos. - Ele gargalhou, e adorei o som. - E a professora Mariana é bipolar. Não estranhe.
Ele assentiu e continuei. Conversamos durante todo o intervalo, e depois pelo corredor. Eu nunca havia falado tanto com alguém que não fosse a Tina, o Igor ou meu primo que era quase meu irmão, Davi. Ah, e claro... ele.
A lembrança me fez desanimar um pouco, mas balancei a cabeça para esquecer disso.
Não era meu assunto favorito. 
 Entrei na sala ainda conversando com o professor, não havia nenhum aluno ainda, por isso sentei na minha cadeira e ele ficou escrevendo algumas coisas no quadro, ainda conversando. A voz dele era calmante para mim, e me peguei ouvindo atenta, tudo o que ele falava. Ele parou apenas quando outros alunos chegaram, falando com esses com a mesma simpatia. 
Recostei meu queixo no tampo e fiquei olhando para ele, distraída.
- Ei, projeto 137. Chamando.
Ah, aquela voz. Enjoada. Fechei a cara e olhei para o lado encontrando os olhos verdes do meu futuro crime se ele terminasse o intento de cutucar meu braço com a chave do Porsche dele,   como parecia ser sua intenção, de pé ao lado da minha cadeira.
Esperto como era, ele percebeu e recolheu a mão, ainda me olhando cinicamente.
- Vamos fazer o trabalho hoje, na minha casa. Só para confirmar. 
Continuei o olhando indiferente. Ele entendeu a deixa e continuou, desfazendo o sorriso vendo que eu não ia ter nenhuma explosão de humor.
- Vamos juntos quando terminar a aula, quero me livrar disso.
- Digo o mesmo. - respondi finalmente dando a entender que era um sim e voltei meu olhar ao quadro. Não vi sua cara, ele apenas sentou e a aula começou.
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Eu acho mais fácil lidar com números do que com pessoas. Números não lhe traem, ou lhe deixam. Números não lhe humilham, ou lhe esquecem. Números sabem a verdade desde o princípio: eles são usados.
Eu gosto de números, cálculos e formulas certas, coisas racionais. Coisas que eu sei o resultado. Eu odeio incertezas, passos no escuro. Eu odeio não saber o que vai acontecer no final. Eu odeio pessoas que não sabem o que são, que se escondem.
E odeio Nelson.
O cara conseguia ser insuportável. Eu preferia mil vezes passar a tarde fazendo aquele maldito trabalho sozinha, a ter que escutar ele falar sobre seu Porsche ou o raio que o parta. O sujeito tem dinheiro, tudo bem. Mas Valentina podia comprar a empresa do pai dele com o dinheiro da família dela, e nem por isso perdia o precioso tempo dela tentando rebaixar os outros. Gritando com todo mundo. Tentando ostentar, e pior, chamar atenção. 
E eu tive que aguentar isso por toda uma tarde, sem explodir uma única vez. Ele só calou a boca quando viu que eu continuava em silêncio, apenas fazendo o maldito projeto, conversando apenas sobre isso,sem dar importância a nada mais dos eu falatório,incluindo sobre meu pequeno apartamento.
Eu não sabia qual era a do Nelson, ele ficava tentando me rebaixar, tentando se mostrar melhor, mas, puta que pariu, o cara tinha dinheiro, era, tinha que admitir, o maior gênio do curso em 20 anos, e só por que eu tirei uma notinha maior que a dele em um cadeira em minha vida, ele me marcava como alvo. Certo que depois eu surrei ele na saída uma vez, mas ele que começou. E eu tive sorte de não receber um processo, e só não me meti em problemas com a universidade por que na realidade estávamos já fora do terreno da universidade, e não sabia o porquê, ele não se queixou de nada. Era pessoal.
Ele, naquele momento havia fechado a matraca e trabalhava no projeto do nosso modelo pelo programa que ele mesmo havia construído há alguns anos. Eu podia achar o sujeito um mala, mas eu tinha que admitir que ele era um geniosinho. Estava ficando bom, melhor ainda com ele calado.
Eu trabalhava com os cálculos para o funcionamento do protótipo. Era apenas um seminário, mas pelo jeito ele levava tão a sério quanto eu. 
Pelo jeito, nós éramos um pouco parecidos, e isso era um pesadelo.
- Onde é o banheiro? - perguntei me levantando não acreditando que eu estava medindo a semelhanças com aquele sujeito.
- Terceira porta  a esquerda. - ele respondeu sem me olhar. - E não se perca.
- Como se fosse possível. - resmunguei saindo mas ele ouviu.
- Você e aquele seu amigo retardado se perderam na excursão da universidade há um ano. Nem crianças se perdem em um lugar daqueles.
- Pro inferno. - resmunguei, por que era verdade. Igor e eu tínhamos um censo de direção vergonhoso. Nós dois tínhamos TDH, mas enquanto Igor era muito hiperativo, e eu muito distraída. A gente já havia se perdido em cada passeio da escola e universidade possível e impossível. Uma vez Tina, Igor e eu passamos a noite procurando uma trilha, deu até no noticiário o desaparecimento, foi vergonhoso e Davi passou uma semana me fazendo decorar mapas por causa de um surto fraternal de preocupação.  
Não consegui achar o banheiro, mas encontrei o que parecia ser um quarto, e lá havia um banheiro. Entrei, estava muito apertada para ser educada.
O banheiro daquele quarto era do tamanho da minha casa.
Eu dormiria lá de boas.
Fiquei por lá, mexendo nas coisas brilhantes como uma idiota, dai quando virei claro que derrubei uma caixa da pia e caíram uns sabonetes pequenos por todo canto juntamente com um gel que se abriu e sujou tudo. Me agachei para pegá - los, mas não conseguia mais encaixar na caixa, não sei o porquê, quer dizer, tinha que entrar!
Desisti e coloquei alguns nas gavetas, mas ao tentar limpar o gel com papel higiênico, sujei minha mãos com a substância pegajosa, era gelada. Fiquei brincando com aquilo,sem saber o que era. Tinha um cheiro estranho.
Lavei as mãos e procurei o lixo para jogar a prova do crime fora, mas não achava em lugar nenhum, então joguei tudo na privada, mas não vi um maldito sabonete indo junto no meio dos papéis.
Adivinhem.
Aquele negócio não descia e comecei a me desesperar. Eu estava ferrada!
Procurei ao redor alarmada, abrindo gavetas e portas atrás de alguma coisa para me ajudar. E foi quando me deparei com uma porta de armário cheio daqueles potinhos de gel, e, pasmem, caixas de camisinhas.
Muitas. Tipo, muitas mesmo!
Fiquei entre paralisada e curiosa. Peguei algumas para ver, e o pote para ver o que era, e estava assim quando a porta que ao que parecia a senhora inteligência não havia trancado se abriu, e uma loira bonita entrou paralisando ao me ver.
- Nelson, sua camisa estava na minha cama, eu vim...
Era Mira.
Ela olhou para mim tentando entender a cena, paralisada na porta com a mão na maçaneta e uma camisa branca na mão, provavelmente do irmão.
Nos encaramos, eu agachada em frente ao armário, o cabelo suado, molhada por tentar desentupir o negócio lá, com aquelas coisas na mão. Fiquei corada e então ela arregalou os olhos ao me reconhecer e começou a rir.
- O que faz com esse lubrificante e camisinhas? E no quarto do meu irmão! - perguntou com a voz rouca de rir e corei mais.
Lubrificante!
Soltei o potinho no chão rapidamente e as caminhas como se fossem me morder.
- E.eu não...Ah...sabe. - tentei falar e ela fechou a porta e se recostou nela. Não gostei da cara dela e me retesei.
- Está transando com meu irmão Saki?
Paralisei.
E então ri. Muito. Tipo, muito mesmo. Era algo tão... estranho.
- O que acha? - perguntei ainda rindo.
- Ele geralmente gosta de homens, como você vê por seus... hum... produtos, mas ele gosta de pegar menininhas bobas como você também.
Parei de rir e fechei a cara.
- Tão idiota como o irmão. - suspirei. 
Andei para a porta para sair dali, antes que fizesse ela engolir aquelas camisinhas, querendo ou não, ela estava saindo com meu amigo, e ele gostava da vadia.
Ela não saiu da minha frente e ergui minha sobrancelha.
- Com licença. - falei de forma sugestiva.
- Antes, só um aviso. Eu gosto do Igor, de verdade. Ele não é como os idiotas daquela universidade. Mas não gosto de você, e nem do grude de vocês dois. Você acaba com a imagem dele. A garotinha problemática. - Ele sorriu, os olhos em fendas. Era maluca mesmo, e eu estava com cara de idiota demais para falar, pega de surpresa. - Eu não posso te tirar da vida dele, por que não sei como, ele gosta de você, mas vou conseguir isso, então você facilitaria meu trabalho se afastando.
- Vou afastar minha mão na sua cara se não sair da frente. - Falei ficando quase na ponta dos pés para encarar a garota que conseguia ficar bonita até com uma camiseta e short velho.
Ela riu. Riu de mim, e então se afastou e abriu a porta.
- Isso é guerra Saki.
- E eu aceito. - rebati dando as costas e saindo pelo corredor. Cheguei na sala e peguei minha bolsa jogando tudo dentro zangada. Nelson se virou me olhando confuso.
- Ei, o trabalho...
- Depois. Terminamos a porcaria desse trabalho depois. - sibilei e então me acalmei. Ele não tinha culpa, pela primeira vez. A não ser de não ter empurrado a irmã na piscina quando eram novos me poupando daquilo... - Amanhã, ou depois tudo bem?
Ele fez sinal de tanto faz. Minha cara não devia estar boa.
- Quer que eu...
- Eu pego um táxi. - respondi rápido, saindo dali.
Só no táxi me lembrei do banheiro. Esperava que o sanitário houvesse explodido e inundado aquela casa inteira. 
Ela havia conseguido foder com meu belo dia, e com minha terapia cara.  

Capítulo 2 - Igor apaixonado = problemas



Apaixonada.
Ato criado por não sei quem, para torturar pobres criaturas. Bem, eu estava ferrada.

Depois de passar a tarde inteira pensando em uma coisa só (ou uma pessoa só), eu vi que minha situação havia ficado feia. Para uma pessoa com deficit de atenção pensar em uma coisa apenas por tanto tempo, pode ter certeza que existe algo de muito estranho nisso.
E para piorar, o filho de uma Senhora que não conheço de meu professor, passou um seminário no primeiro dia de aula. Sim, ele o fez. E que o inferno o engula, juntamente com o seu sadismo, ao me colocar em dupla com Nelson. Ele conseguiu terminar de jogar meu dia na lama, mal posso respirar o mesmo ar daquele aspirante a Bill Gates, e agora terei que fazer um trabalho com ele.
Que depois recolham os destroços. Vou mandar os restos do garoto para ele pela caixa de correio. Lindamente.
E para completar a situação, ainda o noivo da Valentina pintou na área. É ele entrando por uma porta e eu saindo pela outra. Não que eu não goste do sujeito (e eu não gosto mesmo), mas é por que eles... se animam demais. Apartamento pequeno e tudo mais... Preciso nem explicar o fim disso tudo.
E assim, para completar meu dia, seis horas da noite, e eu no parque perto da minha casa, despejada não sei por quantas horas, vendo a vida passar, nuvens ameaçando chuva, celular sem bateria para ouvir música, casais se beijando...
Já reparou em quando você está sozinha, parece que surgem casais dos quintos dos infernos? Eles brotam das árvores. Até os patos no lago andam em par. É um lembrete do universo que você, e apenas você, não tem ninguém.
E um lembrete que até essa manhã eu aparentemente pouco estava me lixando para isso. É possível mesmo uma pessoa mudar rápido demais. Eu estava soltando até aqueles suspiros bobos, minha mão e meus dedos trabalhando em meu caderno de desenhos formando um par de olhos negros...Até os corações com flechas...
Essa última parte é brincadeira. Flechas não.
- Hobbit!!
- Jesus!! - Dei um grito jogando o caderno para o ar e ouvi a gargalhada  escandalosa do meu melhor amigo idiota se jogando do meu lado na grama.
- Sou apenas eu! - Ele ironizou ainda rindo. - Ou esperava o seu professor?
Corei até a raiz do cabelo escondendo o desenho que o infeliz devia estar espiando há um tempo. Era um mistério para mim como um sujeito tão grande conseguia ser tão... furtivo.
- Não faço ideia do que está falando. - repliquei com cara de paisagem e ele negou com um suspiro.
- Estamos fodidos. - Completou sonhadoramente.
E lá vinha história.
- Quem foi a garota agora? - perguntei me jogando a seu lado.
Ser amiga.
Ato de escutar seu amigo falando de bundas de garotas, certo?
Mas um detalhe sobre Igor. Ele SEMPRE estava se apaixonando. E rápido. Se uma garota era bonita, gostava das mesmas coisas que ele, pronto. Piorava tudo se ela gostava de animes, aí era o apocalipse.
Mas, assim como eu, ele era um azarado. Por que em primeiro lugar, se apaixonar é uma droga. Segundo lugar, mulheres são complicadas. Terceiro lugar... Igor era IGOR. Ele sempre ia gostar da menina mais complicada. Por que quando a pessoa nasce para isso, é o fim.
Igor era, sem dúvida, o cara mais inteligente que eu conhecia, carismático, entendia de um monte de coisas, era capaz de fazer chover no inferno, mas não conseguia manter um relacionamento por mais de um mês, sem sair com o coração em frangalhos.
E é por isso, que os sujeitos mais inteligentes geralmente tem tendência ao alcoolismo.
- Ela gosta de vídeo games... - ele falou sonhador.
- Fudeu. - concordei rindo.
- Não ria! - ele ralhou mal-humorado. - Ela é linda...Estava usando uma blusa do Star Wars. Sabe o que significa uma mulher linda usando uma blusa do Star Wars?
- Que estava em liquidação? - Ele virou para mim indignado. - Ok! Entendi, brincadeira. Ela é incrível, fodástica. Diga o nome.
- Mari! - Ele falou mais animado e congelei.
Mari.
Meu melhor amigo estava apaixonado pela irmã de meu pior inimigo, Nelson.
Sim, o mundo me amava.
- Mari... do cabelo loiro, mechas violetas... - tentei, queria ouvir uma negativa.
- Conhece? Ela é tão legal... Quer ouvir como a conheci?
- Uhum...
- Sabe, eu estava...
"Ela vai comê-lo vivo no café da manhã. E depois enterrar os ossinhos."
- Então ela me falou que amava o...
"Ele acha que ela é a princesa Léia, mas esta mais para Anakin... Aquela garota é bipolar!"
- E ela riu! Ela riu comigo e não de mim! Sabe o que isso significa?
- Que ela te achou hilário? - perguntei incerta.
- Isso! Ela gostou de mim, uma mulher gostar de mim... uma mulher daquelas sabe...
Ele suspirou e eu fiz o mesmo. Eu só tinha a torcer para ele, e me preparar para comprar um caixão duplo, para ela e para o irmão dela, se ele inventasse de aprontar para o lado do Igor.
- E você se lascou também pelo jeito, até desenhando o sujeito... - Ele virou a cabeça de lado me encarando e fingi que não vi olhando para cima, soltando um resmungo. - Nunca te vi fazer isso por cara nenhum a não ser o...
- Não fale esse nome! - ordenei lhe lançando um olhar gelado e ele concordou e fez sinal de rendição.
- Ok, ok. Só frisei isso. Minha garotinha cresceu! - ele me zoou e fiquei em duvida se ria ou não. Impossível, acabei rindo.
- Como me achou aqui? - perguntei curiosa.
- Pelo seu Ki. Ele sempre me parece extremamente depressivo ou irritado. - Ele falou com falsa seriedade. - Então o senti e fiz um tele transporte.
Ser melhor amigo de uma garota problemática.
Ato de fazê-la rir sempre que possível, mesmo quando as coisas vão mal.
Por isso eu gostava tanto de Igor. Ele me conhecia melhor do que eu mesma.
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Quando pude ir para casa, já passava das oito da noite e começava a chover. Havia jogado vídeo-game da casa do Igor, jogado conversa fora, depois dado umas voltas pelo quarteirão, até que aquilo me encheu e fui ver o casal se agarrando. Com sorte eles estavam na sala e eu me trancava no quarto.
O noivo da Tina, era um imbecil. Sabe, daqueles caras que se amam, se adoram, e usam os outros como troféus. Ele era assim. E a para piorar, Valentina o amava. Eu disse né, paixão é uma droga. Amor, então... Seria tão mais fácil se conseguíssemos encontrar uma pessoa boa para gente de cara, ser uma paixão certa, e não unilateral e tudo mais... Mas quem disse que isso acontecia?
Como se vê, eu e meus únicos grandes amigos não somos o exemplo de pessoas que se dão bem no amor.
Mas em duas semanas, isso tudo ia mudar, e quem disse que para melhor, se ferrou.
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